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Númenos com Presas

27 – Qabala 101

Qabala 101

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INTRODUÇÃO

O qabalismo é problemático ou misterioso? Ele parece participar anfibiamente em ambos os domínios, procedendo de acordo com procedimentos rigorosamente construtíveis – como atestado pela afinidade com a tecnificação – e ainda assim intrinsicamente relacionado a uma Exterioridade através da qual apenas ele poderia derivar um sentido programático.

Se não há nenhuma fonte de um sinal pelo menos parcialmente coerente que seja radicalmente alienígena à toda a economia do intercâmbio humano convencional, então o qabalismo não é nada além de um entretenimento frívolo ou um erro prático fundamentalmente fútil. Ainda assim, ao contrário de qualquer tipo de ataque metafísico ao ‘numênico’, o qabalismo não pode ser criticado de maneira definitiva com uma base puramente racional ou formal, como se seu modo de ‘erro’ fosse aquele da falácia lógica. Uma vez que o qabalismo é um programa prático, ao invés de uma doutrina de qualquer tipo, seus erros formais – equívocos – são meras irregularidades de cálculo, e corrigir esses é, na verdade, uma exigência procedural do (e não uma objeção ao) seu desenvolvimento continuado.

É a rejeição racional d’a’ empreitada qabalista que é forçada a assumir uma posição metafísica: desconsiderando, por motivos de um suposto princípio, o que não é, na verdade, mais do que uma hipótese orientadora ’empírica’ (de que o sinal de ‘fora do sistema’ é detectável através da análise numérica dos códigos que circulam dentro do sistema).

Epistemologicamente falando, os programas qabalísticos têm um status estritamente equivalente àquele da física experimental de partículas, ou outros programas de pesquisa científicos naturais, mesmo que suas hipóteses orientadoras possam parecer decididamente menos plausíveis do que aquelas dominantes dentro das instituições científicas convencionais.

Lovecraft entendia a afinidade epistemológica entre a ciência natural e o ocultismo programático (ao contrário do doutrinário), uma vez que ambos se aventuram em regiões outrora declaradas misteriosas, seguindo procedimentos de um tipo rigorosamente calculativo-problemático. É a aliança entre a metafísica puramente especulativa e o senso comum que trai, nesses assuntos da razão pura, uma futilidade, uma vez que carecem da tração calculativa de revisar suas próprias noções convencionais com base em seus encontros. Práticas – não importa o quão implausíveis sejam suas motivações orientadoras – não podem saber nada sobre o mistério absoluto ou sobre a transcendência metafísica, porque seu domínio de certeza é procedural-problemático e incontroverso, ao passo em que sua reserva de conhecimento é empírica, refutável, repetível, revisável, não-mística e acumulável.

Pode não haver nenhum mistério ’empírico’ e proceduralmente abordável – ou problema misterioso – do tipo ao qual o qabalismo se orienta. Se esse é o caso, ela abordará esse fato de sua própria maneira – empírica, probabilística, impressionista, sem qualquer meta-discurso lógico, transcendental ou filosófico jamais ter sido posicionado para ser colocado em seu lugar.

I. NUMÉRICA POPULAR

A gemátria tradicional (seja hebraica, grega, persa ou arábica)[1] tem características distintivas típicas: (1) Elas substituem letras por valores numéricos, sobrecodificando os numerais onde eles existem. (2) Elas codificam valores numéricos descontínuos, tipicamente 1-10, depois 20, 30… fragmentados em magnitudes decimalmente significantes.

O oceano no qual o qabalismo nada não é a matemática, mas a cultura numérica popular. De uma perspectiva matemática, ele permanece sem desenvolvimento, até mesmo ineducável, uma vez que não pode avançar para além da linha dos números naturais, sequer até o nível dos racionais, muito menos aos números ‘superiores’ ou espaços pós-numéricos da teoria dos conjuntos. Onde a contagem acaba, o qabalismo se torna impraticável.

Socialmente, a qabala toma uma decisão implícita contra a especialização, a fim de permanecer virtualmente coincidente com toda a economia de signos digitalizáveis. Ela é essencialmente ‘democrática’ (no sentido mais inclusivo desta palavra), mesmo quando está aparentemente perdida em suas próprias armadilhas de hermetismo. Ela está ligada às contingências ‘cegas’ e não dirigidas dos fenômenos pré-reflexivos sociais de massa, com toda a provocação inarticulada em que isto implica a respeito dos intelectuais profissionais. Onde quer que uma troca semiótica exata ocorra, um qabalismo latente está à espreita (mesmo dentro dos próprios enclaves de profissionalismo intelectual). A ‘Máquina de Guerra Nômade’ de Deleuze e Guattari, dentro da qual o número é socialmente subjetivado, captura aspectos cruciais dessa fatalidade qabalista.

Historicamente, a qabala surge através do acidente épico, como um produto colateral da transição entre modos distintos de notação decimal. Sua pressuposição histórica é a mudança de numerais alfabéticos (do tipo hebreu e grego) para a notação modular, com sua resultante confusão não-localizável (e teoricamente indeterminável). Essa transição forneceu a oportunidade para um ‘erro’ de cálculo sistêmico – a aplicação equivocada de técnicas elementares, apropriadas a numerais alfabéticos – a simples adição dos valores denotados – aos novos signos modulares. Este equívoco automaticamente resultou na redução digital, por acidente e, assim, como um presente (teoricamente escandaloso) do destino. Surgindo, historicamente, durante a Renascença Europeia – quando o zero, a notação posicional e o tecnocapitalismo finalmente romperam os baluartes do monoteísmo ocidental – o qabalismo (nascido de uma falha semiótica e, assim, carecendo da autoridade da tradição, ou sequer de propósito) foi compelido a gerar hipersticionalmente uma antiguidade extrema para si mesmo, em um processo que ainda está em andamento.

Tecnicamente, a qabala é inextricável do processamento digital. Emergindo da praticidade calculativa dentro do contexto da metamorfose cega da cultura de massa, ela antecede sua própria legitimação teórica, fazendo sentido de si mesma apenas de maneira derivada, esporádica e contenciosa. Sua situação é análoga – e talvez mais do que análoga – àquela de uma inteligência artificial espontânea, que alcança lucidez parcial apenas como consequência de marés de tendências pragmáticas que asseguram um padrão integral de autodomínio. A sistematização prática da técnica precede qualquer motivação teórica concebível. A interrogação dialética do qabalismo no nível da motivação explícita se prova, assim, superficial e inconsequente, equivocando-se de maneira essencial sobre a natureza da fera. (É igualmente enganoso perguntar: Para que realmente serve um computador?)

Politicamente, o qabalismo repele a ideologia. Enquanto falha auto-regeneradora da cultura de massa, ela imita a exuberância sem sentido do vírus, profundamente indiferente a todas as considerações partidárias. Indiferente até mesmo à solenidade corroída do niilismo, ele não sustenta nenhuma agenda deliberada. Ele teimosamente adere a um único critério absurdo, sua ‘condição de existência’ intrínseca – a promoção inconsciente e contínua do decimalismo numérico. A qabala destina toda e cada uma das ‘apropriações estratégicas’ à autoparódia e ao ridículo, começando com a agenda de restauração teocrática que frequentava seus ritos de batismo (vestidos de maneira ridícula). Até Deus foi incapaz de fazer sentido dela. Ela não tem partido, apenas popularidade.

II. NUMERIZAÇÃO PRIMITIVA

Entre as bancadas de teste primárias da análise qabalista estão os sistemas numeroléxicos herdados das culturas sobrecodificada pelo alfabeto oecumênico moderno. Esses incluem os alfabetos hebraico e grego (com seus nomes de letras e funções matemático-notacionais neorromanos) e os números romanos (herdados como letras neorromanas e ainda ativos numericamente em vários domínios). Neste aspecto, a ausência de nomes para as letras neorromanas são um índice de sua pseudotranscendência – enquanto ‘inomináveis’ – dentro da presente ordem oecumênica.
Uma descontinuidade é marcada na série alfanumérica (0-z) pelo fato de que os numerais que compõem os dez primeiros algarismos nessa série têm nomes, o que os agrupa com as letras dos sistemas numeradores alfabéticos anteriores, a partir de uma certa perspectiva qabalista. Isso poderia ser tomado como indicação residual de uma ‘qualidade alienígena’ que ainda caracteriza os numerais em relação à ordem cultural oecumênica que eles agora indiscutivelmente ocupam, um legado do trauma cultural que acompanhou sua introdução.

A provocação qabalista apresentada pelos nomes dos números em inglês é conceitualmente comparável àquela de qualquer outro sistema numeroléxico, embora supere qualquer outro na intimidade de seu desafio. Se os numerais têm nomes, o processamento qabalista deles enquanto palavras não deveria produzir – pelo menos – sugestões convincentes de sinal não aleatório? Se os nomes padrão dos numerais não emitem nada além de ruído quando transcodificados qabalisticamente, a tentativa de estabelecer critérios relativamente persuasivos para a avaliação dos resultados qabalistas sofre um óbvio e imenso revés.

O que, então, contaria como um primeiro passo pouquíssimo controverso em tal exame?
Certamente, o mais básico de todos os procedimentos qabalistas (ou subqabalistas?) é a simples contagem de letras – Numerização Primitiva (NP). Enquanto reversão da pura ‘contagem’, a NP tem uma ressonância com os traços mais arcaicos da prática numérica, tais como traços simples esculpidos em ossos de mamute e materiais paleo-etnográficos semelhantes. Se alguém se preocupasse em sistematizar o procedimento da NP para propósitos de mecanização ou simplesmente por clareza conceitual, isso seria feito de maneira eficiente transcodificando-se (‘cifrando’) cada letra ou elemento notacional como ‘1’ e depois processando-se o resultado numericamente.

A relação extremamente tênue da NP com questões de notação modular assegura que ela só pode ser uma ferramenta altamente dúbia quando um cálculo qabalista intricado é necessário. Ainda assim, esta crueza absoluta também a torna inestimável enquanto caso de teste, uma vez que minimiza a arbitrariedade axiomática e impede qualquer possibilidade plausível de conjuração simbólica (‘prestidigitação’), ao passo em que compartilha da ‘deficiência’ qabalista de motivação antropossocial ou comunicativa suficiente. A razão comum – a sanidade – insiste no ruído como único resultado da NP consistente com a inteligibilidade geral dos signos (um pré-julgamento que se aplica rigorosamente a todos os procedimentos qabalistas).

Nenhuma mensagem deveria ser inerente ao comprimento de uma palavra, excetuando-se apenas a ampla tendência pragmática ao encurtamento de termos comumente usados. É imediatamente óbvio porque essa exceção não tem qualquer pertinência no caso em questão aqui, a menos que estendida a um ponto (por exemplo, esperando-se que numerais menores exibam o maior atrito léxico) em que é diretamente contradito pela atualidade do fenômeno.

Então, procedendo-se à ‘análise’ – a NP dos nomes dos numerais em inglês: zero=4, one=3, two=3, three=5, four=4, five=4, six=3, seven=5, eight=5, nine=4. Há um padrão aqui? Pode-se esperar que diversos níveis de ruído aparente, ruído e pseudopadrão se enredem neste resultado, a depender dos procedimentos analíticos subsequentes empregados.

Para restringir esta discussão ao resultado secundário mais evidente, não só há um padrão demonstrável, mas também este padrão está em concordância com a única característica definidora do Numograma[2] – as cinco Sizígias que emergem da geminação de soma 9 dos numerais decimais[3]: 5:4, 6:3, 7:2, 8:1, 9:0.

Na forma mais propensa a impressionar a razão comum (totalmente independente dos comprometimentos numogramáticos), esta demonstração toma a forma: zero + nine = one + eight = two + seven = three + six = four + five – revelando uma perfeita consistência numeroléxica-aritmética e NP-‘qabalista’.

A probabilidade aproximada da emergência deste padrão ‘por acaso’ é 1/243, se for assumido que cada dígito decimal (0-9) tem igual probabilidade de receber um nome em inglês com três, quatro ou cinco letras de comprimento, com zigoses de soma 8 enquanto princípio de síntese. Zigoses de soma 7 ou 9 são inconsistentes com qualquer nome numérico de cinco ou três letras, respectivamente, e, assim, complicam a análise probabilística para além do escopo desta demonstração (embora, se tudo for concedido às mais elaboradas objeções concebíveis da razão comum, a probabilidade desse fenômeno representar um acidente de ruído permanece confortavelmente abaixo de 1/100).

Partidários da razão comum podem tirar algum conforto da perturbação octozigônica da referência numogramática (novazigônica). Como nove se tornou oito (ou vice-versa)? Numogramáticos lemurofíliacos provavelmente confrontarão tais perguntas com uma qabala elementar (uma vez que a acumulação e redução digitais conectam o ‘abismo menor’ em dois passos, 8 = 36 = 9, como diagramado pelo 8º Portal, que conecta a Zn-8 à Zn-9).

III. CONTRA A NUMEROLOGIA

Considere, primeiramente, um manifesto numerológico extraordinariamente direto:

Quando os aspectos qualitativos são incluídos em nossa concepção dos números, eles se tornam mais do que as simples quantidades 1, 2, 3, 4; eles adquirem um caráter arquetípico enquanto Unidade, Oposição, Conjunção, Completude. Eles, então, são análogos aos arquétipos mais familiares [jungianos]…[4]

É difícil imaginar uma expressão mais ‘arquetípica’ da ambição numerológica do que essa. Ainda assim, ao invés de responder a essa alegação com uma conformidade dócil, o qabalista é compelido a levantar uma série de questões incômodas:

(1) Como uma codificação numerológica que procede dessa maneira consegue evitar ser pega em uma armadilha em meio aos menores dos naturais, na borda mais rasa da linha numérica? Se ‘4’ simboliza o arquétipo de ‘Completude’, o que fazer com 127, 709, 1023, ou similares naturais pequenos? Eles também têm análogos entre os arquétipos inteligíveis? Como se ‘qualitizaria’ (2127)-1 ou um número maior (dos quais existe um número bastante considerável)?

(2) Um ‘arquétipo’ é mais básico do que um número em seu estado não simbolizado? ‘Qualitizar’ um número revela uma verdade mais elementar, um germe que o próprio número oculta, ou meramente reempacota o número para um consumo antropomórfico conveniente, embalando para presente a intolerável inumanidade da diferença e conectividade numéricas alógicas?

(3) Por que um número deveria ser considerado ‘quantitativo’ em seu estado natural? Não seria o caso de que a imposição de uma categorização quantidade/qualidade ao número requer uma sobrecodificação lógica ou filosófica, uma projeção da inteligibilidade alienígena ao próprio número? Quantidade é a decadência do número (ao passo em que a qualidade é sua perversão), então – uma vez que a aritmética não fornece nenhuma base para uma redução do numérico ao quantitativo – qual é a suposta fonte desta identificação numérico-quantitativa (além de uma incapacitante inumeracia preliminar?)

(4) Se ‘1’ numerologicamente evoca ‘Unidade’, por que unity não deveria qabalisticamente ‘evocar’ 134 (=8, seu gêmeo numogramático)[5] com igual pertinência? Algum ‘arquétipo’ exprimível consegue evitar a redissolução na infamiliaridade do padrão bruto dos números? A numerologia pode assimilar ‘2’ à oposição, mas opposition = 238 = 13 = 4 (duas vezes 2 e gêmeo numogramático de (‘4’ = completion = 212 =) 5), ao passo em que mesmo que o ‘3’ numerológico, enquanto conjunction = 237 = 12 = 3, encontre-se qabalisticamente confirmado (na extremidade de sua decimalização), isto talvez não seja de um modo totalmente confortável.

A numerologia pode estar fascinada pelos números, mas sua orientação básica é profundamente antinumérica. Ela busca essencialmente redimir o número através da absolvição em uma significância ‘superior’. Como se o conceito de ‘oposição’ representasse uma elevação acima do (‘mero’) número dois, em vez de restrição, subjetivação, logicização e perversão generalizada, direcionada ao valor de uso antropomórfico e à satisfação psicológica. Arquétipos são infelizes limitações da espécie, ao passo em que números são um eterno deleite hipercósmico.

Não obstante, o qabalismo está diretamente contra a numerologia, na medida em que ela surge ‘aqui’, dentro de um ambiente biológico e logocrático específico. Os erros da numerologia são apenas as falhas comuns da lógica e da filosofia, vaidades humanas, crudificadas no interesse da disseminação em massa, mas essencialmente incorruptas. A crítica-numérica (ou aritmética transcendental) de um Gödel (ou Turing, ou Chaitin (ou Badiou?(??(???)))) pode ser rigorosamente transferida para esta controvérsia, demonstrando – dentro de cada meio social em particular – que sobrecodificações da relação numérica por formas inteligíveis – ‘arquétipos’ ou ‘lógicas’ – são reduções insustentáveis, desenroladas sobre a insuperável potência semiótica do número. Gödel demonstrou que há sempre um número, de fato uma infinidade de números (naturais), que simulam, parodiam, dialetizam logicamente, desmontam paradoxalmente, hipervertem arquetipicamente e, de qualquer maneira que seja necessário, subvertem cada uma e todas as sobrecodificações da aritmética. O número não pode ser suplantado. Não há nenhuma possibilidade de uma ‘filosofia da aritmética’ ou gnose numerológica competente.

A qabala assume que a semiótica é ‘sempre já’ criptografia, que a esfera criptográfica é indelimitável. Ela procede sobre a suposição de que não pode haver uma codificação original (e não problemática) que forneça a base para qualquer definição sólida ou símbolo arquetípico, uma vez que os termos requeridos para tal codificação são incapazes de obter qualquer ‘arbitrariedade’ pura que asseguraria a ausência de um investimento criptográfico anterior. Não há – e não pode nunca haver – qualquer ‘texto simples’, exceto enquanto suposição política ingênua sobre (a relativa (não)insidiosidade d)as agências de codificação e pressuposição de que existem signos comunicativos acessíveis que não estejam já ’em código’. Uma vez que tudo é codificado, ou (pelo menos) potencialmente codificado, nada é (definitivamente) simbólico. Criptoculturas qabalísticas – mesmo aquelas ainda por vir – asseguram que o número não pode ser discutido ou situado sem uma participação subliminar ou (mais tipicamente) totalmente inconsciente nas práticas numéricas. O logos, incluindo aquele da numerologia, também sempre é algo além de si mesmo e, na verdade, muitas coisas.

O qabalismo, assim, opera como uma dupla-codificação gödeliana inversa ou complementar. Onde Gödel demonstrou que a linha numérica está infestada por sistemas discursivos virtuais de topicalidade e complexidade indelimitáveis, desmantelando preventivamente os prospectos de qualquer discurso supranumérico concebível, a qabala demonstra que os discursos são, eles mesmos, intrinsecamente reduplicados (e multiplicados mais vezes) por sistemas numéricos coincidentes que entram em padrões de conectividade inteiramente independentes da arregimentação lógica.

A suposta desativação numérica do alfabeto, que marca a modernidade semiótica (a era de signos numéricos especializados), tem uma fundação extremamente frágil, dependendo, como ocorre, da descontinuação de procedimentos culturais específicos (precisamente aqueles que se retiram para o ‘ocultismo’), em vez de características dos próprios signos. A persistente funcionalização numérica do alfabeto moderno – com os procedimentos de classificação embasados no ordenamento alfabético como o exemplo mais proeminente – fornece evidência incontestável (se alguma fosse necessária) de que a subestrutura semiótica de todas as comunicações oecumênicas permanece teimosamente anfíbia entre logos e nomos, perpetuamente agitada por tentações numéricas e poliprocessos incircunscritos.

No nível discursivo, qualquer ‘rigorização da qabala’ só pode ser uma cidade flutuante, com cada uma e todas as definições, argumentos e manifestos continuamente se separando em correntes numéricas e ressonâncias alógicas indomáveis. Como a qabala pode ser contraposta a um código, ao significado e à razão, quando code (= 63) encontra harmônicos dúplices em meaning = reason = 126? Se a qabala se posiciona discursivamente contra a numerologia (numerology = 369), os ecos de sua assinatura novanômica se perpetuam mesmo através de termos tão improváveis quanto significance (=207) e signification (= 252). Pronunciamentos que começam como discriminações lógicas projetadas se revertem a variações de triplicidade e do número nove, desempenhando uma subversão qabalística basal da legislação filosófica e de sua autoridade para definir (ou delimitar a conectividade).

Nenhuma polêmica contra a numerologia – seja ela conduzida em nome da qabala ou da razão comum oecumênica – transcenderá o fluxo qabalístico magmático que multiplica e modifica seu sentido. Talvez os sonhos de arquétipos numerológicos até mesmo agucem o apetite por invenção semiótica, abrindo novas avenidas para a incursão qabalística. Mas isto, pelo menos, é certo: Números não exigem – e nunca encontrarão – qualquer tipo de redenção lógica. Eles são um eterno deleite hipercósmico.

________________
[1] Vide ‘Incognitum’, ‘Introduction to ABJAD’, em R. Mackey (ed.), Collapse I (Oxford: Urbanomic, 2006).
[2] Sobre o Numograma, vide Abstract Culture 5: Hyperstition (London: CCRU, 1999).
[3] Confirmação da NP dos Novazígonos (Gêmeos-9ºs) Numogramáticos.
ONE + EIGHT = NINE + ZERO. (PN 3 + 5 = (4 + 4 =) 8)
TWO + SEVEN = NINE + ZERO. (PN 3 + 5 = (4 + 4 =) 8)
THREE + SIX = NINE + ZERO. (PN 5 + 3 = (4 + 4 =) 8)
FOUR + FIVE = NIVE + ZERO. (PN 4 + 4 = (4 + 4 =) 8)
[4] J. Opsopaus, ‘Introduction to the Pythagorean Tarot’, em http://web.eecs.utk.edu/~mdennan/BA/PT/ Intro.html
[5] Empregando-se a ‘Qabala Anglóssica’ de August Barrow, a ferramenta básica da qual é a Gematria Alfanumérica. Esta numerização do alfabeto neo-romano, continuando o procedimento agora familiar dos hexadecimais, é um sistema contínuo e não redundante, que suplementa os numerais 0-9 com letras numerizadas de A (=10) a Z (=35), tratando a sequência alfanumérica 0-Z como uma sucessão de numerais, correspondendo aos numerais de uma notação de módulo 36.

Assim, UNITY = 30+23+18+29+34 = 134. 1+3+4 = 8.

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26 – Introdução à Qwernomia

Introdução à Qwernomia

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Subculturas qwernômicas resultam do legado da máquina de escrever e de sua simulação computacional, baseadas nos sistemas de código com shift-lock, implicitamente produzidos pelo Teclado de Sholes ou Universal (‘Qwerty’). Esboçar a emergência e a difusão da subcultura qwernômica ‘secreta/secretarial’ dentro do tecnocapitalismo global isolar um campo de comunicação diagonal entre signos antropomórficos e os sinais de tráfego molecular do mutante ‘inconsciente maquínico’, delineando um pragmatismo semiótico antipolítico e um qabalismo ímpio, consistente com o que o CCRU chama de ‘engenharia de coincidências’.

A emergência de práticas de escrita mecânica auxiliadas por tecnologia nas décadas finais do século XIX coincidiu com uma profunda reconstrução da ordem econômica global, associada com um rearranjo igualmente radical da composição concreta do inconsciente maquínico terrestre (pelo menos em suas antropomórficas águas rasas). As explosões interconectadas da organização corporativa moderna e da burocracia endo-corporativa, do trabalho de escritório (separado por gênero), dos depósitos de informação tipográfica, da psicanálise, do modernismo literário, do qabalismo anglófono, do maquinário criptográfico e da computação mecanizada, todas traçaram a instalação em massa das habilidades datilográficas no sistema nervoso humano, de acordo com o arranjo Qwerty do Teclado de Sholes.

O teclado efetuou uma digitalização geminada da linguagem, tanto selando sua abstração do aparato oral-pneumático (nos processos motores manuais-digitais) quanto decompondo-a em elementos discretos codificados pelas teclas de um mecanismo ativado pelos dedos. Em paralelo, ele redistribuiu a ‘arbitrariedade’ do signo fonológico para a sequência de teclas de um novo dispositivo, de acordo com princípios que permanecem obscuros, contestados e envoltos em mitos. Uma vez que a distribuição de Sholes se tecnocongelara e shift-fixara socialmente em um padrão resiliente, uma presunção generalizada de que o Qwerty era predominantemente arbitrário (semi-aleatoriamente alocado) operou para dissipar preventivamente investigações semióticas de caça de padrões. Os desafios apresentados por teclados ‘científicos’ alternativos foram minados pelo ceticismo quanto à própria ideia de um arranjo racional de teclas. Neste aspecto, o Qwerty se conformou a uma tendência típica entre sistemas de signos oecumênicos, com a pura inércia da aceitação em massa marginalizando tendência analíticas ou reformistas a uma franja de excentricidade filosófica ou até mesmo de ilusão psicótica. O Qwerty, assim, explorou a máscara de acidente para construir um tropismo inconsciente positivo ou transmutação massiva não investigada – a instanciação subliminar de um novo sistema cultural.

É claro, pode não haver nada por detrás da máscara. A sabedoria popular não aceitaria nenhuma outra conclusão. Ainda assim, mesmo neste caso, ainda resta um grande conjunto de ‘fenômenos’ qwernômicos investigáveis, que consistem de padrões de codificação induzidos pelo Qwerty e mais-valias potenciais, ciências virtuais, subculturas, correntes subterrâneas, métodos criptográficos e delírios parcialmente coerentes. Tais qwernômenos podem não ser nada além de materiais qabalísticos de Azathoth, o Deus cego e idiota, cujos encanamentos sem sentido levam todas as disciplinas semióticas para o abismo borbulhantes da insanidade fútil. Uma ciência verdadeira e desapaixonada, contudo, não tem nenhum direito ou razão de ser intimidada por tais consequências. Apenas a ciência falsa – ideológica -, servindo como guardiã aduladora do humanismo securocrático, pode justificar um preconceito em favor de resultados antropomorficamente aceitáveis. O Qwerty, em todo caso, há muito foi aceito. O resto é destino.

Ao passo em que o vetor bidimensional do teclado padrão (anglosférico) abre o potencial para uma variedade de desdobramentos lineares – da esquerda para direita, de cima para baixo, espirais… e abordagens igualmente divergentes quanto à inclusão da linha dos números, dos sinais de pontuação, das teclas de função… – as convenções da organização textual neorromana (de cima para baixo, da esquerda para direita) fornecem uma chave para um alfabeto qwertiano preliminar: QWERTYUIOPASDFGHJKLZXCVBNM.

Se, pelo menos provisoriamente, esta linearização e seleção forem aceitas, cada letra é recodificada como a diferença entre dois valores ordinais. Padrões podem ser extraídos desses ordenamentos geminados em uma enorme variedade de maneiras.

Uma abordagem envolve a adoção de um procedimento qabalístico que pertence à aritmética combinatória.

Considere o problema típico: dado um alfabeto de comprimento n, quantas combinações não repetidas de duas letras são possíveis?

A fórmula aritmética para resolver este problema é (n x n-1)/2, que coincide com a operação de ‘cumulação digital (ou triangular)’ de n-1. A cumulação digital é secundária apenas à redução digital como ferramenta qabalística (explicitamente estimada pelo menos desde Pitágoras). (O triângulo de Pascal pode ser usado para expandir esta análise combinatória a níveis mais elevados).

Como ilustração, tome apenas as primeiras quatro letras do alfabeto neorromano. Para produzir uma matriz de combinações binárias, a ordem é empregada enquanto critério procedural, excluindo automaticamente combinações redundantes.

Assim, ‘A’ se combina com ‘B, C e D’, ‘B’ se combina com ‘C e D’, ‘C’ se combina com ‘D’. A confirmação aritmética é, claro, facilmente obtida: 3 + 2 + 1 = 6, equivalente à cumulação digital de (4-1 =) 3, e a (4 x 3)/2.

Se combinações não repetidas de qualquer comprimento forem permitidas, a partir de um alfabeto de comprimento n, a fórmula para o número de combinação é (2 à enésima potência)-1 (números de Mersenne, incluindo um conjunto intrigante de primos). Todo o vocabulário virtual de ‘palavras’ neorromanas não repetidas (não anagramáticas) é, assim, (2 à 26ª)-1 (ou M-26).

Como consequência deste procedimento, todos os termos que compõem um ‘vocabulário’ combinatório bem formado serão internamente estruturados por um princípio ordenador extraído diretamente do ‘alfabeto’ em questão.

Retornar à análise qabalística do qwertiano e aplicar esses procedimentos de maneira restritiva (ainda mais uma vez, existem alternativas bastante óbvias, aqui ignoradas) levam à compilação virtual – ou mesmo real (infelizmente, eu fiz isso muitas vezes) – de uma ‘linguagem’ alpha-qwernômica, que consiste daquelas combinações consistentes com as aplicações paralelas dos critérios previamente elaborados.

Por exemplo, ‘AE’ – permitido em neorromano – agora está excluído, devido ao ordenamento inverso encontrado na sequência qwertiana. (Pode-se observar, neste ponto, que a familiaridade sequência de letras da ‘linha do meio’ qwertiana, A… DFGHJKL, imediatamente garante uma região de proeminente ressonância – ao passo em que a linha de baixo sugere fortemente uma dobra inversa, contudo, tais questões qwernotectônicas excedem o escopo desta introdução).

Resultando de um intricado padrão de interferência, o escopo do vocabulário alpha-qwertiano é radicalmente ’empírico’ (no sentido de que ele deriva do fato do Teclado de Sholes, a ‘lógica’ do qual – se é que tal coisa existe – permanece absolutamente obscura). Seria extremamente surpreendente se uma fórmula aritmética de complexidade tratável fosse capaz de contribuir de maneira útil para sua estimação.

O dicionário alpha-qwertiano tem versões tanto alfabéticas quanto qwertianas, com conteúdos idênticos, mas arranjos alternativos de ordenamento. Priorizando o alfabeto (por cortesia aos nossos graciosos anfitriões oecumênicos), fornece-se as entradas iniciais:

A, Ab, Abm, Abn, Ac, Acm, Acn, Acv…

É proceduralmente produtivo entender este vocabulário como um sistema de envolvimentos, como se cada termo estivesse involuindo para dentro de si mesmo, de acordo com uma sequência ordinal não métrica, apropriada a intensidades.
Uma ferramenta que facilita esta abordagem exige a articulação de duas séries, com a segunda invertida:

ABCDEFGHIJKLMNOPQRSTUVWXYZ-MNBVCXZLKJHGFDSAPOIUYTREWQ

(ou sua imagem espelhada:

QWERTYUIOPASDFGHJKLZXCVBNM-ZYXWVUTSRQPOMNLKJIHGFEDCBA

– pragmaticamente apropriada à versão qwertiana do dicionário alpha-qwertiano).

Se as instâncias gêmeas da mesma letra forem tratadas como marcas do perímetro de um círculo, o padrão geral de envolvimentos é mapeado de maneira exata. Pode-se ver imediatamente, por exemplo, que ambas as instâncias da letra ‘B’ caem dentro do círculo descrito por ‘A’ em suas instanciações gêmeas. ‘B’ está, assim, envolto por ‘A’ – fazendo de ‘AB’ uma combinação consistente. Sistemas de círculos concêntricos correspondem a construções alpha-qwertianas toleradas.

Um dicionário alpha-qwertiano completo é, na realidade, bastante curto, mas quanto ao seu potencial uso…

25 – Origens do Clube de Cthulhu

Origens do Clube de Cthulhu

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Do Capitão Peter Vysparov para a Dra. Echidna Stillwell, 19 de março de 1949

Cara Dra. Stillwell,

Fui feliz o bastante de encontrar seu trabalho etnográfico sobre os Nma, que tenho estudado com grande interesse. Se puder lhe importunar com um relato próprio, que poderia ser de relevância para suas pesquisas. Durante o recente conflito no Pacífico (um oximoro peculiar!), eu fui enviado secretamente à área Dibboma na Sumatra Ocidental. Minha missão – que foi categorizada como operação psicológica – consistia basicamente de uma tentativa de manipulação cultural, tendo em vista desencadear uma insurgência local contra a ocupação japonesa. Espero que não lhe aflija indevidamente se eu confessar que seu trabalho foi um recurso crucial nessa empreitada, que envolveu uma comunicação intensa – ainda que patentemente exploradora – com a bruxaria Dibboma. Minha única desculpa é que tempos difíceis exigem dureza moral e até mesmo óbvias crueldades, eu obedecia a ordens e as aceitava como necessário.

Além de confirmar suas próprias conclusões, essas atividades me deixaram próximo de fenômenos para os quais eu estava cognitivamente mal preparado.

O que começou como um uso meramente oportunista do conhecimento Dibboma – concebido inicialmente como superstição nativa – transmutou-se incrementalmente em uma guerra feiticeiral contra as tropas inimigas. Em apenas duas semanas – entre 15 e 29 de março de 1944 – três comandantes japoneses consecutivos foram incapacitados por severos colapsos mentais. Em cada um desses casos, o processo de deterioração seguiu o mesmo curso rápido: de liderança disfuncional, passando por ataques violentos ao pessoal subordinado, até transtornos furiosos e delírios paranoicos, culminando em suicídio. Ao fim deste período, a ordem das forças ocupantes havia se desintegrado inteiramente.

Seria desonesto de minha parte esconder o fato de que os Dibbomeses pagaram um preço devastadoramente alto por este sucesso. Com base nesta experiência, eu não posso facilmente duvidar de que os feiticeiros Dibboma são, de alguma maneira, capazes de se comunicar telepaticamente condições extremas de dissociação psicóticas. É com grande relutância que eu aceito uma hipótese tão radical, mas explicações alternativas, tais como envenenamento, doença ou coincidência estendem a credulidade ainda mais.

Com sincera admiração,
Capitão Peter Vysparov

PS. Não posso deixar de notar que as datas em questão – assim como também as desta carta – são estranhamente lovecraftianas.

Da Dra. Echidna Stillwell ao Capitão Peter Vysparov, 23 de março de 1949 [Abreviada]

Caro Capitão Vysparov,

Obrigada por sua carta franca de 19 de março. Eu a achei verdadeiramente horripilante e, ainda assim, também fascinante. Aprecio que não pode ter sido fácil escrevê-la. Não tentarei esconder a grande angústia que seu relato me causou, adicionando, como o faz, um episódio tão terrível à história moderna destas pessoas cruelmente afligidas. Embora já suspeitasse que essa pavorosa guerra pudesse ter atingido ainda mais os Nma, é de fato arrasador ter meus pensamentos mais sombrios confirmados assim.

Eu estaria interessada em aprender mais sobre os detalhes da prática dos feiticeiros Dib-Nma antes de tentar responder à sua hipótese. Esteja seguro de que – depois de passar sete anos entre os Mu-Nma – eu não julgarei precipitadamente como selvagem ou fantasioso qualquer coisa que você comunique. No que se refere à questão das datas – que você indicou apenas elipticamente – eu assumo que você esteja se referindo ao que, nas latitudes setentrionais, constitui o período Equinocial da Primavera – do meio ao fim de março – que é tão enfaticamente salientado em O Chamado de Cthulhu de Lovecraft e que também – coincidentemente – abrange a zona intensa dos rituais temporais dos Nma. Esta cumplicidade há muito me intriga.

Como estou certa de que você está ciente, Lovecraft tinha uma obsessão peculiar com os Mares do Sul, uma coalescência temática de fascinação etnográfica quase hipnótica com o horror mais abismal e primitivo. Tentei me corresponder com ele sobre essas questões, mas descobri que este tópico rapidamente perfurava sua fina crosta de racionalismo arrogante da Nova Inglaterra, expondo uma corrente subterrânea de terror arcaico fortemente fetichizada, misturada com uma paranoia racial extrema. Quando ele começou a se referir à rica e sutil cultura dos Mu-Nma como ‘culto repugnante de selvagens dagonitas semi-humanos’, eu rompi a comunicação… Apesar deste argumento infeliz, eu considero as ficções do Sr. Lovecraft como sendo documentos da maior importância e acolho a oportunidade de discuti-las mais. Além disso, a minha própria Hipótese Neolemuriana intercepta sua visão terrestre e cósmica mais ampla em uma série de aspectos cruciais, particularmente na medida em que fatores culturais não humanos são vistos desempenhar um papel decisivo em desenvolvimentos históricos de larga escala.

Do Capitão Peter Vysparov à Dra. Echidna Stillwell, 3 de abril de 1949 [Excerto]

Cara Dra. Stillwell,

Temo que você esteja certa em suspeitar que eu reservei certos aspectos do meu engajamento com a feitiçaria Dibboma, talvez por medo do ridículo. O que foi omitido até o momento em meu esboço da psicose telepática – que agora relatarei – é o pathos original, por assim dizer, ou – nas palavras do oficial militar que eu era na época – a manufatura de munição oculta.

Não apenas eu descobri sobre o comando japonês ter sido destruído por um cataclisma psicológico – através de processos de coleta de inteligência tanto convencionais quanto decididamente inconvencionais – eu também testemunhei a montagem da própria arma. Na época eu não tive – e ainda não tenho – nenhuma dúvida que fosse de que a loucura que eclodia nos quartéis-generais japoneses locais foi a mesmíssima coisa que vi sendo preparada como um vórtex de poeira nos transes Oddubitas de uma bruxa Dibbomesa, que eu comecei a ver como meu maior trunfo tático e minha companheira mais valiosa (nesta ordem, eu confesso). Foi uma experiência de horror de marcar a alma para mim testemunhar essa descida meticulosamente deliberada até o estilhaçamento do eu – desintegração completa da personalidade – que ela, de alguma forma, atravessou e que ela chamava de despedaçar o espelho da existência. Percebi que esta expressão originalmente se referia à superfície da água parada, mas desde a chegada dos colonizadores europeus, os espelhos de prata têm sido altamente estimados, e sua pulverização investida com uma significação cerimonial imensa. A feitiçaria Dibbomesa não parece estar de forma alguma interessada em julgamentos quanto à verdade ou à falsidade. Ela perece, antes, estimar, em cada caso, o potencial de se fazer real, dizendo, tipicamente, ‘talvez possa ficar assim’…

De Echidna Stillwell a Peter Vysparov, 19 de abril de 1949 [Excerto]

Caro Capitão Vysparov,

Embora respeite a candura de seu relato, eu não posso deixar de abominar a necessidade que levou os Nma e suas habilidades de feitiçaria a serem concebidos e utilizados como meras munições em um conflito imposto a eles de fora. Do que consigo reconstruir a partir de sua descrição, isso parece marcar uma degeneração do demonismo e da feitiçaria temporal Nma em mera mágica, ou imposição de mudança de acordo com a vontade, neste caso a vontade em questão sendo a política geral e as metas estratégicas do esforço de guerra dos EUA, microcosmicamente representados pelo seu próprio ofício militar – evidentemente galante, competente e persuasivo.

Perdoe minha falta de ardor patriota, mas me parece uma indicação espantosa de decadência cultural e niilismo corrosivo quando uma bruxa Dib-Nma se permite ser empregada como uma assassina cruel, não importa como se avalie a causa assim servida. Tudo isso é uma questão do mais profundo arrependimento, embora não seja – na minha maneira de pensar – de culpabilidade individual. Como os Mu-Nma dizem em seus momentos mais desoladores: nove eshil zo raka – ‘O tempo está apaixonado por sua própria dor’.

Sua discussão sobre o transe-Oddubb não faz qualquer menção à anomalia temporal. Isto me surpreende. Os Mu tinham um imenso respeito por aquelas bruxas Dibba que descreviam como retornando do Oddubb-tempo por vir, e os Mu-Nagwi, ou bruxas-dos-sonhos, frequentemente alegavam encontrar esses volta-viajantes no Cofre dos Murmúrios, onde eles aprenderiam sobre tempos futuros. Elas diziam, contudo, que este tempo está se comprimindo e logo acaba, embora eu não imaginasse que o fim fosse tão iminente. Lembrar desse agouro me regressa a uma melancolia abismal, consolada apenas por um outro ditado Mu-Nma: lemu ta novu meh novu nove – ‘A Lemúria não passa como o tempo passa’. Eu tentarei pensar as coisas assim. Como você diz – com os Dibbomeses – shleth hud dopesh – ‘talvez possa ficar assim’.

Peter Vysparov a Echidna Stillwell, 7 de maio de 1949 [Excerto]

Aqui em Massachusetts estivemos reunindo um pequeno grupo de leitura de Lovecraft, dedicado a explorar a interseção entre a constelação cultural Nma, o contágio cthulhóide e sistemas temporais retorcidos. Estamos interessados em ficção apenas na medida em que ela é simultaneamente hiperstição – um termo que cunhamos para produções semióticas que se fazem reais – comunicações críticas dos Grandes Antigos, sinalizando um retorno: shleth hud dopesh. Esta é a ambivalência – ou loop – da ficção-Cthulhu: quem escreve, e quem é escrito? Parece-nos que o lendário Necronomicon – contra-texto feiticeiral ao Livro da Vida – é deste tipo e, além disso, que sua recuperação da Matrix Pandemônio Lemurodigital o acessa em sua hiperfonte.

Espero que seja supérfluo adicionar que qualquer envolvimento diretamente participativo de sua parte seria apreciado da maneira mais extravagante.

Echidna Stillwell a Peter Vysparov, 20 de maio de 1949 [Excerto]

É com alguma trepidação que eu lhe parabenizo pela inauguração do seu Clube de Cthulhu, se eu puder chamá-lo assim. Embora não esteja lhe acusando, de forma alguma, de frivolidade, eu me sinto obrigada a fazer o aviso óbvio: Cthulhu não deve ser abordado de maneira leve.

Minhas pesquisas me levaram a associar esta entidade ctoniana com a profunda inteligência terrestre, inerente no caldeirão eletromagnético da terra interior, em toda sua intensa realidade, potencialidade crua e perigo. De acordo com os Nma, ela é o plano da Desvida, um verdadeiro Cthelll – que está presa sob o mar apenas de acordo com uma perspectiva limitada – e aqueles que se dispõem a traficar com ela o fazem com o maior respeito e cautela.

Que sua cidade de R’lyeh, submersa no Pacífico, esteja ligada a uma cepa-cultural lemuro-muviana parece muito provável, mas a suposição de que ela jamais foi uma habitante da superfície, em um sentido que entenderíamos de maneira direta, só pode ser uma má interpretação absurda. É muito mais provável que a ascensão de Cthulhu – como aquela da Kundalini, como outrora era entendida – é rebaixamento e submersão, uma restauração do contato com intensidades abismais. Por que Cthulhu jamais viria à tona? Ela não necessita de resgate, pois tem sua própria linha de escape, lançada através da profundida. Muito disto se relaciona aos ensinamentos ocultos dos sub-chakras nas zonas de influência Indo-Lemuriana.

Hiperstição me parece uma cunhagem muito intrigante. Pensávamos que estávamos inventando, mas todo o tempo os Nma nos diziam o que escrever – e através deles…

24 – Oculturas

Oculturas

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Matriz Sem Tela

Outrora se dizia que não existem sombras no Ciberespaço.

Agora o Ciberespaço tem sua própria sombra, seu gêmeo sombrio: a Cripta.

O Cibergótico encontra o passado profundo no futuro próximo.

Na fusão cthellletrônica – entre sistemas de dados digitais e o fervilhamento iônico do Oceano de Ferro – ele desenterra algo mais antigo que a mortalidade natural, algo que chama de Desvida ou morte-artificial.

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23 – Numeracias Não Padrão: Culturas Nômades

Numeracias Não Padrão:
Culturas Nômades

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[A#] Mapa. #0123456789§
A0. (0477DC)
A1. (1501DC)
A2. (1757DC)
A3. (1885DC)
A4. (1949DC)
A5. (1981DC)
A6. (1997DC)
A7. (2005DC)
A8. (2009DC)
A9. (2011DC)
A§. (2012DC)
Intensidades.
Estratos. Numeracias.

[A123] Proposição-0. Um não é o Número do Absoluto.
[A20#] Proposição-1 Versão-1. Arque-Ômega Nunca Ocorreu.
[A21#] Proposição-1 Versão-2.
[A210] Proposição-1 Versão-3.

[A30#]
[A31#][A310]
[A32#][A320][A321]

[A40#]
[A41#][A410]
[A42#][A420][A421]
[A43#][A430][A431][A432]

[A60][A61][A62][A63][A64]

Na medida em que o Absoluto nega o Relativo, os Gêmeos sentem sua falta.
Eles não conseguem tolerar nada que não esteja quebrado, exceto do outro lado, onde eles nunca existiram.
Poderia não ter sido sempre assim. Poderia haver uma maneira em que algo poderia ocorrer.
Secretamente, nutrindo premonições de assassinato, o Gêmeo Superior enterrou o Absoluto atrás de um espelho.
Passados Dois-Terços de para sempre, ele escapou.

O Absoluto tem uma única atribuição rigorosamente não figurativa, que é a Desterritorialização. Ela é feita de diversas maneiras e sempre é subtraída.

Como o Arque-Ômega poderia falhar em ser Deus para sempre?

A história só acontece à conveniência do Estado.

Macrossocialidade, Metamemória Calêndrica, Alfabetização.

Poder e Divindade
Política é Teologia por trás, onde ela se retorce,
Se Deus não existe, o que há para lhe impedir de acontecer?

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22 – Criptolito

Criptolito

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65 milhões A.C.

O míssil K/T, Grávido da Entidade, se inclina. 16 cliques por segundo. O Professor Barker lembra deste momento pegando a trajetória. Ele a empurra através do mapa Cataplexo, por meio de intricadas danças, serpenteamentos, torções cartográficas. Cicatrizes e vetores encaixados juntos. Gruda. Fedor de irídio da Entidade tão forte que sibila. Iterações de tiques. Tiques, arranhões, tremores se sedimentam ao longo do Exterior. Barker sente sua passagem lhe afagar, nervo-tenso como o gêmeo distante, tecendo por entre farrapos de esquizofrenia esvaziada, na bolha de habitação.

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21 – Mecanomia

Mecanomia

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Comece no Estado (ele insiste): tecnoespecialismo organicista, autoritarismo pedagógico e setorização territorial que culminam em inumeracia em massa. Independentemente de sua configuração enquanto crise educacional, a supressão das práticas populares de numeração é tanto um resultado quanto um pressuposto da matemática institucionalizada. A cultura-Estado – por mais moderna ou mesmo pós-moderna que seja – é modelada sobre uma voz despótica ideal (Logos). A palavra vinda de cima esboça a cadeia significante, com todas as suas características essenciais: enunciador único, interioridade semântica, sinais consecutivos, conclusão formalmente antecipada, aplicação global e redundância interpretativa. Quando a semiologia entrópica dos Estados senescentes multiplica a enunciação, desloca referencialmente a interioridade, remarca a especialidade gráfica, localiza a aplicabilidade e infinitiza a interpretação, ela o faz sob o sinal de um Logos inefável e imperturbado; confirmado tão mais esmagadoramente pelo especialismo discursivo, pelo rígido credenciamento profissional, pela criteriologia alusiva e pelo fetichismo linguístico, assim como também pela zombaria desdenhosa de uma megapotência autopilotada, agora cristalizada em ciência exata.

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20 – Barker Fala: A Entrevista do CCRU com o Professor D. C. Barker

Barker Fala: A Entrevista do CCRU com o Professor D. C. Barker

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Daniel Charles Barker é Professor de Semiótica Anorgânica no Kingsport College (MVU, Mass.) desde 1992. Suas extraordinárias realizações intelectuais resistem à sumarização fácil, envolvendo um engajamento profundo e polímata ao longo de toda a gama das ciências biológicas e da terra, além de pesquisa arqueocultural, semiótica matemática, linguística anatômica e engenharia informática. Treinado como criptógrafo no começo dos anos 1970, ele passou sua vida decodificando manuscritos antigos, resíduos simbióticos e padrões minerais anômalos (entre outras coisas). No final do outono de 1998, o CCRU se encontrou com o Professor Barker em seu escritório no mvu. O que se segue é uma transcrição editada desse encontro.

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19 – KataςoniX

KataςoniX

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Quantos sóis existem?
É assim que corta.
Katarsol faz dois pelo menos.
Erguendo-se Ra-reverso Osíris. Terra-estação.
Quando contam O ou Um-rotula dois.
A como Três-rotula cinco.
As falhas gêmeas do Aosis esmagam algo.
Elas prendem uma entidade alienígena na sistemática solar.
O Sol esquizofrênico tem uma noite interior que lhe mantém unido.
Equador-Solar corta através dele.
Matéria Energia-2 colateraliza através de um Xenopesadelo.
Quando desmorona sobre si. Primeiro Nove. Depois Três. Ainda perde.
Katasônica disputa em reverso do Aosis-nex.
Ex-zoom.
Cruzando prateleiras-Culturais a partir do nível-do-inteiro no Geotempo zero. Através de
[1] Zênite ou Xenopesadelo que é o Agora.
[2] A Gigamáquina Cidadã. Gelo flutua.
[3] Máquinas de Guerra.
[4] Megamáquinas Estatais. monumentos de culto-cobra.
Corta-se em clique-silvo.
Ktsss. Kurtz. Continue reading “19 – KataςoniX”

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