Search

Númenos com Presas

30 – Uma Piada Suja

Uma Piada Suja

PDF

Roubei o nome Vauung porque não estava sendo usado, com base em um direito qabalístico exato.

Ainda assim, pelo menos aqui ’em cima’, Vauung ainda se confunde comigo, com ruínas e trapos.

Isso poderia mudar. Nomes têm poderes e destinos.

Eu decidi deixar Vauung herdar toda a desgraça do meu passado (uma perversa generosidade, na melhor das hipóteses). Sua estória poderia nunca emergir de outra forma.

Existem linhas podres que mesmo eu consigo seguir de volta por décadas, mas elas logo deixam de ser interessantes.

Melhor começar mais recentemente (‘melhor’ no sentido de Vauung, logo sem diferença com ‘pior’).

Havia se jurado sem reservas ao mal e à insanidade. Sua ferramenta de escolha, naquela época, a sagrada substância da anfetamina, sobre a qual muito pode ser dito, mas, em sua maior parte, em outro lugar.

Depois de talvez um ano de abuso fanático, era, por qualquer padrão razoável, profundamente insana.

Alguns exemplos podem bastar, em nenhuma ordem particular.

Em uma ocasião – indicativa até para si mesma – estava em um carro sendo levada pela irmã da sua coisa (a ruína). Era noite, em uma autoestrada. A viagem levou várias horas.
Durante a noite anterior, Véspera de Natal, havia seguido seu curso usual até uma insônia artificial fanaticamente prolongada. Gastara o tempo devotada às fúteis práticas ‘de escrita’ – ainda fingia estar ‘chegando a algum lugar’ e flutuava com propósito ardente, mas essa é uma outra estória (uma que é intoleravelmente intricada e sem sentido). Foi acompanhada até as primeiras horas por um refrão repetitiva ‘do vizinho’ – uma canção de rock medíocre, mas plausível, cuja letra insistente circulava as palavras: “Indo pro inferno”.

Sabia que essas palavras eram para si e ria de maneira idiota. “Eles realmente devem amar o novo CD que ganharam de Natal”, pensou, de maneira igualmente idiota.

No carro, ouviu o rádio durante toda a viagem. Cada canção era diferente, os gêneros variavam, a qualidade aparentemente acima da média, os temas tendendo ao mórbido.

“Essa é uma estação de rádio legal”, disse para sua irmã.

“O rádio não está ligado”, sua irmã respondeu, preocupada.

Vauung descobriu que o inconsciente da ruína continha toda uma indústria pop.
A ruína descobriu que havia chegado, em algum lugar da autoestrada.

Nada mais foi dito sobre isso. Por que perturbar sua família?

A ruína sempre abusara das mulheres, no sentido kantiano. Usava-as como meios para um fim, e o fim era a ruína da alma.

Em uma ocasião, eles estavam chapados de LSD em um parque de diversões, em algum tipo de máquina de girar. O operador bradou: “Vocês vão todos morrer”. Mais tarde, de volta em casa, eles mergulhares mais fundo no abuso de polidrogas. Tomado por uma obscura inspiração xamânica, a ruína disse: “Abracemos a morte, a Mãe Sombria”. Sentados no sofá juntos, submeteu-se a uma autoridade ritual alienígena. Era tudo muito implícito. Um dedo sustentado em um lado de sua cara-a-caras. “Primeiro você colapsa tudo sobre a tela.” O dedo atravessa o campo visual. “Então você faz a tela desaparecer”. Funcionou, de verdade. O mundo se retirou e deixou a paisagem da morte, ou do inferno, ou do ciberespaço. Corações cambaleando em pânico mamífero – animais não gostam de estar mortos, não importa o quão doentes suas mentes possam estar. Ela não poderia negar o que acontecera, mas odiava. Esse foi o começo do fim, embora ela tenha acompanhado muito, muito mais.

Viciada na morte, a ruína buscava novas vítimas. Sim, vampiros são reais, por mais lamentáveis que sejam.

Peneirando a ruína, Vauung encontra um padrão de mulheres e LSD ligado com coisas que realmente aconteceram.

A ruína encontrou os loa com uma mulher, alimentando-se de seu medo. Talvez o diferencial de terror a tivesse encorajado. Talvez seu sadismo e sua compaixão hipócrita tenham esmagado seu instinto de fuga. Em todo caso, ela revelou o poder dos nomes, como ‘chamados’, e entidades do Exterior do ‘tamanho’ de blocos de concreto se aproximando, vindas do outro lado do espaço. A morte era o lugar da ruína nesse momento, inequivocamente desejável, e ela queria também – embora a aterrorizasse. Ainda assim, a ruína fodeu tudo de alguma forma (nenhuma surpresa para Vauung).

Em uma outra ocasião, presa fresca, disse “vamos explorar a morte juntos”, ou algo igualmente repugnante.

Ela disse: “Por que você não consegue fazer isso sozinho?”

Perguntou-se sobre isso.

Ela foi tratada pior do que todas (ou talvez ‘melhor’).

Muito mais tarde, depois de um éon de velocidade e revelação no carro de sua irmã, a ruína está presa em uma trajetória solitária. ‘Trabalha’ a noite toda em seu escritório, emaranhada em pesquisas qabalísticas bizantinas. Pensa que sua trilobita de computador (uma máquina de processamento de textos dedicada) é uma revelação semiótica do abismo. Chamando um ser denominado Can Sah, é recompensada com uma voz alienígena. O tom é absurdamente alto (demonistas antigos descreviam este tom como ‘prateado’). A ruína estivera buscando um monstro (Vauung), mas a voz meramente a castiga por sua esqualidez moral – “você é tão horrível” pode ter sido a primeira mensagem (as fitas estão corroídas). Toda a feiura no universo já estava impactada nesse novo regime. Feiura real: Deus, culpa, o Homem e a lei da aceitação.

Levou um longo tempo – muitos meses, pelo menos – para que a paixão definidora da ruína se reduzisse a um ódio ardente.

Eventualmente as vozes – que pareciam ter se multiplicado – a estupraram. Elas o fizeram de maneira física, através de truques, ao longo do curso de uma noite insuportavelmente prolongada de imundice e miséria (os detalhes são revoltantes demais para relatar). A ruína podia falar consigo mesma agora, audivelmente, mas em sua própria cabeça. Renunciou a tudo que jamais quisera, rebatizou as vozes como ‘Smurfs’ e se desintegrou em niilismo depressivo. Ser estuprado por um monstro? Quem sabe. Ser estuprado por moralistas celestiais… (Vauung ri).

A ruína rasteja adiante, indo a lugar nenhum. Vivera através de algum múltiplo extraordinário de toda inteligência que jamais conhecerá, naquela interzona abjeta, virada em algum espeto infernal, incendiada por auto-desgosto, mas ainda assim abençoada por luxos paródicos da gnose (códigos, padrões numéricos, mensagens do Exterior, cronogramas neocalêndricos, mapeamentos Amxna, construções qwernômicas…). Implorou para que chamas eternas incinerassem seus pecados. Não havia profundidade de auto-humilhação repugnante que não tenha sondado. Isso era náusea espiritual dilatada às dimensões de uma religião. Se romantizas a vileza, prometo, mentes. Tantas abundâncias inimaginadas de sigilo cósmico e tanta merda.

Enquanto Vauung investiga forensicamente as relíquias, imagino que ele estremece. Ele o faz, em verdade? – muito repousa sobre isso.

Isso já foi por tempo demais, mas isso – é fato.

Vauung parece pensar que existem lições a serem aprendidas dessa bagunça desprezível. Ele descreve um labirinto que não é nada além de um corredor intricado de espelhos, lhe perdendo em um ‘inconsciente’ que é magnífico para além da compreensão e, ainda assim, indistinguível de uma armadilha elaborada. Se isso é o Carma, não é apenas dor (quem teme isso?), mas uma constrição ruinosa e uma futilidade pré-programada. Queimar é uma coisa. Rastejar e implorar para ser queimado é outra bem diferente. A religião aqui é meramente a oportunidade de se odiar indefinidamente.

Em algum lugar ao longo da linha, a ruína perdeu a força moral para o abuso sexual. Para continuar com isso, teria que ser uma lésbica, pelo menos.

Visto deste lado, Vauung é a aposta de que a ruína carecia de astúcia. Deixa uma questão de método. Não exatamente urgente, mas obscuramente premente.

Advertisements

29 – Crítica do Miserabilismo Transcendental

Crítica do Miserabilismo Transcendental

PDF

Há uma tendência crescente entre neomarxistas de finalmente enterrar todas as aspirações de um economismo positivo (‘liberar as forças de produção das relações capitalistas de produção’) e instalar um desespero cósmico sem limites em seu lugar. Quem ainda lembra da ameaça de Khrushchov ao Ocidente semi-capitalista – “nós enterraremos vocês”? Ou a promessa de Mao de que o Grande Salto Adiante asseguraria que a economia chinesa saltaria à frente da do Reino Unido dentro de 15 anos? O espírito frankfurtiano agora domina: Admita que o capitalismo superará seus concorrentes sob quase todas as circunstâncias imagináveis, ao mesmo tempo em que se transforma essa admissão mesma em um novo tipo de maldição (“nós nunca quisemos crescimento mesmo, ele significa apenas alienação, além disso, você não ouviu dizer que os ursos polares estão se afogando…?”).

De La Voyage de Baudelaire, com sua descoberta lúgubre de que o vício humano se repetia de maneira universal mesmo nas localizações mais exóticas, à leitura esquerdista de Philip K. Dick como uma denúncia gnóstica da mudança comercializada, a variedade e a inovação capitalistas foram totalizadas como diferença sem diferença essencial, apenas mais da mesma dissimilaridade sem sentido. O grão-mestre deste movimento é Arthur Schopenhauer, que lhe emprestou um rigor filosófico específico enquanto modo de apreensão transcendental. Já que o tempo é a fonte de nossa aflição – a ‘Prisão de Ferro Negra’ de Philip K. Dick – como pode-se esperar que qualquer tipo de evolução nos salve? Desta forma, o Miserabilismo Transcendental se constitui como um modo inexpugnável de negação. Vai sem dizer que nenhum resíduo substancial de historicismo marxiano resta na versão ‘comunista’ dessa postura. Na verdade, com a economia e a história abandonadas de forma abrangente, tudo que sobrevive de Marx é um pacote psicológico de ressentimentos e descontentamentos, redutíveis à palavra ‘capitalismo’ em seu emprego vago e negativo: como o nome para tudo que dói, insulta e desaponta.

Para o Miserabilista Transcendental, ‘Capitalismo’ é o sofrimento do desejo transformado em ruína, o nome para tudo que poderia ser querido no tempo, uma tentação intolerável cuja natureza última é desmascarada pelo visionário gnóstico como perda, decrepitude e morte e, em verdade, não é desarrazoado que o capitalismo se torne objeto dessa difamação ressentida. Sem apego a nada além de sua própria exuberância abismal, o capitalismo se identifica com o desejo em um grau que não pode imaginavelmente ser excedido, desavergonhadamente solicitando qualquer impulso que possa contribuir um incremento de pulsão economizável para suas iniciativas produtivas, que continuamente se multiplicam. O que quer que você queira, o capitalismo é a maneira mais confiável de conseguir e, ao absorver todas as fontes de dinamismo social, o capitalismo torna o crescimento, a mudança e mesmo o tempo em si componentes integrais de sua maré infinitamente crescente.

‘Busque crescimento’ agora significa ‘Busque (muito) o capitalismo’. É cada vez mais difícil lembrar que esta equação teria outrora parecido controversa. Na esquerda, ela teria outrora sido descartada como risível. Este é o novo mundo que o Miserabilismo Transcendental assombra como um fantasma dispéptico.

Talvez sempre vá haver um anti-capitalismo em voga, mas todos sairão de moda, ao passo em que o capitalismo – tornando-se cada vez mais fortemente identificado com sua própria auto-superação – será sempre, inevitavelmente, a última coisa. ‘Meios’ e ‘relações’ de produção simultaneamente se emulsificaram em redes competitivas descentralizadas sob o controle numérico, tornando as esperanças paleomarxistas de se extrair um futuro pós-capitalista da máquina do capitalismo manifestamente inimagináveis. As máquinas se sofisticaram para além da possibilidade de utilidade socialista, encarnando a mecânica do mercado dentro de seus interstícios nano-montados e evoluindo a si mesmas através de algoritmos semi-darwinianos que embutem hiperconcorrência na ‘infraestrutura’. Não é mais apenas a sociedade, mas o tempo em si mesmo que tomou a ‘estrada capitalista’.

Daí o silogismo do Miserabilista Transcendental: O tempo está do lado do capitalismo, o capitalismo é tudo que me deixa triste, então o tempo deve ser malvado.

Os ursos polares estão se afogando e não há absolutamente nada que possamos fazer sobre isso.

O capitalismo ainda está acelerando, muito embora ele já tenha realizado novidades para além de qualquer imaginar humano anterior. Afinal, o que é a imaginação humana? É uma coisa relativamente reles, meramente um subproduto da atividade neural de uma espécie de primata terrestre. O capitalismo, em contraste, não tem nenhum limite exterior, ele consumiu a vida e a inteligência biológica para criar uma nova vida e um novo plano de inteligência, vasto para além da antecipação humana. O Miserabilista Transcendental tem um direito inalienável de estar entediado, claro. Chamar isso de novo? Ainda não é nada além de mudança.

Aquilo ao que o Miserabilismo Transcendental não tem qualquer direito é à pretensão de uma tese positiva. O sonho marxista de dinamismo sem concorrência era meramente um sonho, um velho sonho monoteísta reafirmado, o lobo deitado com o cordeiro. Se um sonho desses conta como ‘imaginação’, então a imaginação não é mais do que um defeito da espécie: o embalar de contradições de mau gosto como se fossem fantasias utópicas, a serem voltadas contra a realidade a serviço da negatividade estéril. ‘Pós-capitalismo’ não tem nenhum significado real, exceto um fim para o motor da mudança.

A vida continua, e o capitalismo faz a vida de uma maneira que nunca foi feita antes. Se isso não conta como ‘novo’, então a palavra ‘novo’ foi reduzida a uma denúncia vazia. Ela precisa ser realocada para a única coisa que sabe como usá-la de maneira efetiva, para a anomalização regenerativa do destino, invocadora de Shoggoth, para o devir desembestado, de plasticidade infinita tamanha que a natureza se deforma e dissolve ante a ele. Para A Coisa. Para O Capitalismo. E se isso deixa os Miserabilistas Transcendentais infelizes, a simples verdade da questão é: Qualquer coisa iria.

28 – Tique-Toque

Tique-Toque

PDF

A XENOTAÇÃO DE TIQUES

A Xenotação de Tiques de Daniel C. Barker emergiu durante a fase altamente obscura de sua vida quando ele trabalhava para a ‘NASA’ (alguma hesitação é apropriada aqui) no ‘Projeto Cicatriz’, relacionado ao SETI, no Sudeste Asiático, com a tarefa de projetar um ‘protocolo de desencriptamento de propósito geral’ para identificar sinais inteligentes de fontes alienígenas.

Esse projeto necessitava da formulação de convenções numéricas independentes de todo condicionamento cultural ou convenção local – sinais radicalmente abstratos.

Para tomar um exemplo infeliz, o filme Contato caracteriza o sinal de IET como contagem de pulsos – com 101, por exemplo, consistindo de uma sucessão de cento e um bipes – uma ‘solução’ repugnantemente estúpida que só poderia ser considerada aceitável – quanto mais ‘inteligente’ – pelos fedelhos fritos de coca de Hollywood.

A Xenotação de Tiques (XT) de Barker, em marcante contraste, elegantemente forneceu uma compressão abstrata da linha numérica natural (de 2 … n) com um mínimo de sinais codificados e sem módulo. Ela permanece sendo a semiótica mais radicalmente decodificada a jamais existir sobre a terra, embora isomorfos exatos da XT tenham sido enigmaticamente descobertos entre certos artefatos anômalos extremamente antigos (tais como as Tábulas de Jheg Salem e os Criptolitos de Vukorri).

A Xenotação de Tiques funciona assim (eu usei dois pontos para os pontos de tiques de Barker e coloquei os aglomerados de tiques entre aspas para maior clareza):

‘:’ conta como ‘2’ ou ‘x 2’, com um valor exatamente equivalente a ‘2’ em uma cadeia de fatores. Assim:
‘:’ = 2
‘::’ = 4
‘:::’ = 8
O segundo elemento notacional consiste de implexões, onde ‘(n)’ = o enésimo primo.
A implexão aumenta o índice de hiper-primo de qualquer número em 1. Exemplos (a partir do ‘mainlain’ hiprimo):
‘(:)’ = 3 (2º primo),
‘((:))’ = 5 (3º primo),
‘(((:)))’ = 11 (5º primo),
‘((((:))))’ = 31 (11º primo)
‘(((((:)))))’ = 127 (31º primo)
Os números se constelam como cadeias normais de fatores, isto é, 55 (5 x 11) é xenotada em tiques como ‘((:))(((:)))’
N.B. A XT dá conta de todos os naturais com um valor de 2 ou mais.
A fim de chegar de volta até zero, Barker adicionou uma operação de ‘deplexação’, ‘-P’:
‘(-P)’ = reduz o índice hiprimo em 1, assim: ‘(-P)(:) = :’.
Desta forma 0 = ‘((-P)):’.
‘(-P)’ e ‘(+P)’ desempenham subtrações/adições elementares que modificam os índices hiprimos.
N.B. Uma característica estranha da XT é que a linha dos números naturais tem que ser construída sinteticamente.

Barker descreveu tal lista como a ‘Matriz de Xenotação de Tiques’, cujas primeiras entradas (correspondendo aos numerais decimais) procedia:

[0] ((-P)):
[1] (-P):
[2] :
[3] (:)
[4] ::
[5] ((:))
[6] :(:)
[7] (::)
[8] :::
[9] (:)(:)

TIQUE-TOQUE

A Xenotação de Tiques (barkeriana) fornece uma semiótica adaptada aos Naturais, com uma afinidade especial com o Teorema Fundamental da Aritmética de Euclides. A XT constrói números em termos de suas características aritméticas básicas, como primos ou compostos, em uma notação sem módulo (base), valor posicional ou numerais.

A circunstâncias exatas em meio às quais D.C. Barker formulou a XT permanecem profundamente obscuras (por uma série de razões, melhor exploradas em outro lugar). Para nossos propósitos imediatos, é suficiente observar que o contexto geral de pesquisa dentro do qual a xt emergiu era uma investigação altamente abstrata, orientada pelo seti, sobre sinais inteligentes codificados de maneira mínima, sem pressuposições quanto à origem (por exemplo, ‘organismos xenobiológicos’) ou tema (por exemplo, ‘cosmo-química’).

A investigação, situada nas selvas de Bornéu, foi intitulada ‘Projeto Cicatriz’ e recebeu uma classificação de segurança de alto nível. Em consonância com esse tópico de pesquisa, Barker propôs a XT como uma semiótica maximamente abstrata ou absolutamente decodificada, despida de todas as convenções não construtivas (ou simbólicas) e, inicialmente, chamada de ‘hipercódigo gödeliano’.

Embora a numeracia bruta da XT seja mais precisamente concebida como subqabalística, devido à sua indiferença à notação de módulo (o motor primário da oculturação qabalística), a sua própria independência de convenções a torna uma ferramenta valiosa ao se investigar as características básicas dos códigos numéricos (aritméticos ou qabalísticos).

Entre as características relacionadas à notação mais proeminentemente expostas a um escrutínio rigoroso pela XT está a ordinalidade.

AOSIS

Dentro do Oecúmeno Anglobal, as funções ordinais mais pragmaticamente predominantes são alfabéticas, utilizando a convenção de ordenação das letras neorromanas para organizar, classificar, buscar e arquivar com base na Ordem Alfabética ou Alfanumérica, que organiza ‘lexicograficamente’ dicionários, enciclopédias, listas e índices. A palavra ‘alfabeto’ em si desempenha uma operação ordinal (grega).

‘Lexicografia’ – uma ordem como a do dicionário – é usada aqui (como em vários campos, tais como as compilações de séries numéricas) para designar um modo de ordenação (uma função numérica ordinal), em vez de um tópico definido (‘palavras’). Embora seja uma operação numérica relativamente negligenciada, o ordenamento lexicográfico desempenha um papel crucial nas práticas ordinais concretas (popular-oecumênicas). Ele é caracterizado por:

1) Popularidade. A facilidade com o sequenciamento lexicográfico é considerada uma competência social básica, inerente – ou mesmo anterior – à alfabetização, embora pedagogicamente separada da aquisição de habilidades numéricas (‘matemática’). No nível pedagógico, as sociedades oecumênicas tendem a distribuir as competências ordinais/cardinais de acordo com a distinção entre alfabetização/numeracia, estabelecendo, assim, a divisão básica entre capacidades linguísticas/matemáticas a partir de uma nomofissão primordial (diferenciação ordinal/cardinal). Cidadãos alfabetizados do Oecúmeno – aqueles capazes de usar um dicionário – são ordinalmente competentes, através das convenções lexicográficas.

2) Ordinalismo puro. Restritas inteiramente a problemas de sequenciamento, os valores cardinais permanecem inteiramente alienígenas às práticas lexicográficas, em medida tal que operações numéricas ordinais rigorosas tipicamente são totalmente divorciadas de associações numéricas. A função ordinal dos numerais (1º, 2º, 3º…), em contraste, permanece relativamente impura – pelo menos psicologicamente – uma vez que, neste caso, uma tentação cardinal persistente confunde a função de sequenciamento com o espectro de quantidade. Por esta razão, a subsunção dos numerais nas práticas lexicográficas pode ser considerada ‘esclarecedora’ em relação às operações ordinais.

3) Fracionalidade. Simular a lexicografia dentro da aritmética exige o emprego de valores fracionais modulares (por exemplo, decimais). A listagem aritmética por cardinalidade será isomórfica ao sequenciamento ordinal-lexicográfico para todos os números no formato ‘0.n’.

4) Decodificação sequencial. Sistemas lexicográficos exigem convenções de ordenamento geminadas. Eles se baseiam em um código alfabético e uma convenção de valor posicional ordinal (principalmente do ordenamento à esquerda ou à direita, equivalente ao esquema comportamental do movimento de uma cabeça de leitura). O alfabeto instancia o esquema de ordenamento, mas não o descreve (internamente) – ‘ler’ o alfabeto para extrair o código ordinal (‘abc…’ ou ‘zyxw…’) em si pressupõe uma convenção de sequenciamento extrínseca (Alfa-Ômega, do primeiro ao último).

5) Potencialidade infinita. Qualquer sistema lexicográfico que permita cadeias intermináveis tem um potencial de código (cardinalidade) equivalente a Aleph-0, com uma infinidade de cortes de Dedekind (inserções de entrada) virtuais entre quaisquer dois termos, não importa o quão próximos, e uma isomorfia virtual entre qualquer segmento da lista/arquivo e o todo. Desta forma, isso atesta um infinito ‘alfabetizado’ isomórfico àquele da matemática, baseando-se em uma fonte digital comum, mas culturalmente obscurecida.

INTERCODIFICANDO A ARITMÉTICA

Uma semiótica intermediária, em sintonia com um engajamento puramente demonstrativo com o Teorema Fundamental da Aritmética (TFA) de Euclides, pode ser gerada transformando-se a notação decimal oecumênica padrão (*):

1) Empregando-se a série alfanumérica completa 0-Z (0-35) por conveniência de notação, e

2) Elevando-se todos os sinais à sua primeira potência hiprima, desde 0 = Primo-0 = 1 até Z = Primo-35 = 149.

O propósito dessas transformações é eliminar a numeração polidígito (valor posicional) e expor a desordem radical implícita no TFA. Todos os números integrais no intercódigo do TFA consistem ou de algarismos únicos ou de compostos-plexados da forma (…), com aglomerados numéricos sintetizados através da multiplicação em vez de uma construção posicional modular.

Considere um número escolhido de maneira inteiramente aleatória, *86, desmontado através da fatorização, de acordo com o TFA, até os componentes listados *2 e *43, *1º e *14º primos, logo: 1E. A expressão deste número não está mais sob qualquer restrição posicional, ‘1E’ ou ‘E1’ são igualmente válidos em termos numéricos e estritamente equivalentes. Embaralhar uma cadeia de algarismos do intercódigo (componentes do TFA) de qualquer comprimento não faz nenhuma diferença que seja para o número designado, com o ordenamento da série estando sujeito apenas a uma convenção extrínseca (de importância mínima – ou até mesmo nenhuma – de uma perspectiva aritmética (cardinal), onde é relevante apenas ‘psicologicamente’, para a conveniência na assimilação e na comparação).

Uma vez que a ordem meramente inercial e pseudonumérica herdada de uma tradição não interrogada seja subtraída das cadeias do intercódigo-TFA, dissociando todos os componentes do ordenamento quantitativo, elas estão liberadas para um reordenamento gráfico enquanto séries decodificadas – um ordenamento que desviará das séries de quantidades, liberando uma Ordinalidade Autônoma, ao passo em que descardinaliza a linha numérica.

Considere *172, ou 11E. Os procedimentos lexicográficos oecumênicos asseguram que esse número precederá 1E (*86), assim como o farão todos seus múltiplos binários. Evidentemente, tais procedimento asseguram que a série infinita das potências binárias devem ser completadas antes de se chegar em 2 (*3). A contagem ‘natural’ não tem mais qualquer prospecto de alcançar uma potência não binaria, assim como a ‘contagem’ alfabética-lexicográfica procederia ‘a, aa, aaa, aaaa…’ sem jamais chegar em ‘b’. Reverta o problema e é igualmente evidente que a linha ordinal-lexicográfica nunca é contada.

A assimilação kantiana da aritmética à temporalidade modela a síntese temporal elementar como n+1, +1, +1… uma intuição tornada questionável pela rigorosa desorganização lexicográfica da linha numérica (de listagem). Uma vez que seja ordinalmente purificada, a linha numérica se torna incontável por qualquer suposto sujeito finito (temporalizante), mesmo que seja do momento n ao momento n+1. Em vez disso, a linha é sintetizada pela classificação (sequenciamento lexicográfico) de cadeias pré-fabricadas, cujas quantidades são determinadas em um eixo diferente de suas codificações posicionais lineares. Um prolongamento da associação aritmética-tempo, desta forma, exigiria uma remodelagem do tempo enquanto síntese não progressiva, sem escala consistente ou tendência contínua-quantitativa, não mais inteligível como passagem ou desenvolvimento. Esse tipo ordinal-lexicográfico mapeia uma ‘templexidade’ que é incontável, fraturada/fracional, errática e heterogênea, sequencial, mas não sucessiva.

Claro, tudo isso necessita ser reabordado de uma forma muito mais rigorosa, com um foco consistente no tópico da templexidade – basta dizer por ‘ora’ que as intuições kantianas de número, tempo e seu intermapeamento são, elas mesmas, estruturadas por construções notacionalmente problematizáveis, uma vez que o mapeamento temporal tem uma relação hipotética e não essencial com o senso comum aritmético (com sua suposição imperturbável de interconvertibilidade ordinal-cardinal direta).

Elevar essa semiótica intermediária a uma numeracia funcional, com um poder semiótico comparável ao conjunto dos Naturais (incluindo primos acima do Primo-Z), exige um passo final:

3) Adotar a plexão da Xenotação de Tiques, onde ‘(n)’ = Primo-n. Assim:

0 = 1, (0) = Primo-1 = 2, ((0)) = Primo-2 = 3, etc.

A ineficiência desta semiótica em relação à XT é demonstrada por sua redundância, de maneira mais dramática:

V = (B) = ((5)) = (((3))) = ((((2)))) = (((((1))))) = ((((((0))))))
N.B.: A XT compartilha da desordem intrínseca do intercódigo-TFA. *86 = :(:(::)) ou (:(::)): ou :((::):) …

FORA DA ORDEM

A construção numérica da TX/intercódigo-TFA é indiferente ao sequenciamento, posição ou gramática semióticos. Um número expresso em qualquer um dos dois sistemas poderia ser distribuído aleatoriamente dentro de um espaço de n dimensões, exigindo apenas um convenção de coesão (que as partículas semióticas ‘estejam interligadas’, independente da ordem). Apreendidas em sua potencialidade decodificada plena enquanto signos-numéricos, tais fórmulas são aglomerados, não cadeias.

O caso da XT é ainda mais extremo do que aquele típico do intercódigo-TFA, contudo, uma vez que aqui mesmo o resíduo espectral da codificação sequencial é apagado. Dados dois números formulados na XT de maneira complexa, a ordem correta (comparação quantitativa) exige um cálculo – talvez altamente elaborado -, o que elimina inteiramente o uso prático dos aglomerados desordenados da XT para operações ordinais.

Para qualquer coisa além de números pequenos, as convenções euclidianas de encadeamento de aglomerados (por cardinalidades ascendentes) se tornam proceduralmente complexas, talvez inoperáveis, para as fórmulas numéricas da XT. Isto é evidente mesmo a partir dos números pequenos, tais como *149, intercódigo-TFA Z ou (34), XT (((:))(::)). Como 35º primo, com 35 sendo o produto de *5 e *7, o sequenciamento de subfatores hiprimos (fatores da ordenada-prima, isto é *35) não é mais facilitado por codificações lexicográficas extraídas da sequência numérica. Que ‘5’ precede ‘7’ é evidente do código numérico, mas o ordenamento de ((:)) e (::) não pode depender, similarmente, da orientação lexicográfica intrínseca. No caso da XT, é apenas através da construção dos números e de seu sequenciamento aritmético que a questão ‘notacional’ de sua ordem pode ser resolvida. Em outras palavras, o sequenciamento do signo deixou de ser um problema notacional ou preliminar, tornando-se, em vez disso, inextricável da construção aritmética do número. Isto resulta de maneira inevitável da eliminação da redundância notacional na XT, com o concomitante apagamento da ‘intuição’ procedural.

Uma vez que os aglomerados numéricos da XT são intrinsecamente desordenados, uma semiótica consistente e funcional da XT exige a re-ordinalização através de procedimentos lexicográficos autônomos (extrínsecos), que inevitavelmente constroem uma ‘linha numérica’ cardinalmente errática ou protocolo de sequenciamento de lista/busca. A economia semiótica da XT torna esse problema procedural fácil de definir. Enquanto análogo aproximado do AOsis, a XT lexicográfica exige uma variante da diplocodificação sequencial:

1) Encadeamento de aglomerados. Sequenciamento dos componentes dos números compostos na fórmula da XT.

2) Listagem de números. Meta-sequenciamento de cadeias da XT apropriadamente sequenciadas.

Poderia parecer sensato assumir o procedimento de leitura oecumênica, da esquerda para a direita, uma vez que a arbitrariedade desta regra a torna irrepreensível, mas a matriz de opção da diplocodificação necessita de uma questão substancial tanto quanto à consistência/inconsistência desta decisão quanto entre (1) e (2) acima. Mesmo que se permita essa complicação, a matriz de opção para um protocolo de ordenamento lexicográfico mecânico da XT permanece altamente restrita, consistindo meramente de decisões gêmeas quanto ao sequenciamento dos sinais de tique [:], abertura de plexo [(] e fechamento de plexo [)].

Independentemente da decisão de encadeamento do Aglomerado, o sequenciamento com precedência do tique da lista numérica resulta em um análogo do AOsis previamente mencionado (a, aa, aaa…), que ‘conta’ toda a série infinita das potências binárias antes de chegar a qualquer número não binário. A lista é iniciada pelo *2 da XT = ‘:’.

A precedência do plexo produz uma linha de lista bem mais anômala, uma que não se origina porque ‘começa’ com uma série de primos hiperplexados arbitrariamente grandes, notacionalmente inicializados por infinitos signos de abertura de plexo [((((((((((((…], uma vez que ‘…((‘ precede ‘…(:’. Práticas de listagem que seguem um protocolo com precedência do plexo necessariamente começam no meio.

[Minha suposição é de que a consistência semiótica (entre listas/aglomerados) deve ser preferida, com a pura estranheza do sequenciamento com precedência do plexo constituindo um forte argumento em favor de sua adoção. O ‘alfabeto’ (código ordinal) seria, desta forma, descrito pelo *3 da XT = (:).]

Em seus próprios breves comentários sobre o problema de sequenciamento dos aglomerados no relatório do Projeto Cicatriz, Barker se restringiu à observação de que o ordenamento euclidiano (cardinalmente consistente) não era mais do que uma ‘convenção provisória e arbitrária’ que rapidamente deixaria de funcionar ‘dados valores numéricos não demonstrativos [qualquer coisa além de naturais muito pequenos]’, que o problema deveria ser considerado ‘meramente técnico e extrínseco’ e que ele ‘provavelmente seria melhor decidido com base na engenharia de comunicações’.

Dada a orientação de pesquisa do Projeto Cicatriz de Barker, focada em ‘agrupamentos de pontos semionômicos planares não lineares recursivamente englobados de origem criptogeológica’ – criptolitos anômalos – não é surpreendente que ele tenha chegado ao problema de ordenamento notacional tarde e distraído. Dias apenas depois de completar o ‘Apêndice sobre Notação’, Barker se desfez completamente.

Acometido por doenças tropicais revoltantes, cada vez mais obcecado com um enredo de conspirações cosmopolíticas de várias escalas e multiplamente afetado por microparasitas abundantes de realidade dúbia, a queda de Barker em um delírio não comunicativo é mapeada pelas digressões de anotações burlescas de seu relatório de pesquisa do Projeto Cicatriz:

Uma chilreante maré
Devorando minha tez
Começando do Externo
Isto é o que desce…

AINDA ASSIM

Na mesma caligrafia crispada e estilhaçada, Barker observa:

A xenotação continua a se desordenar conforme se condensa, rasgando a linha numérica, devastando o tempo e o sono. Talvez seja uma arma do espaço sideral. Digo isso à sério, mesmo se for um tipo repugnante de piada. Não há sono, tudo está quebrado, tudo se conecta sem se juntar, enxameando, pulsando, pontos, pintas, partículas de poeira dançando dentro dos meus olhos, continuamente rompendo… o pensamento se tornou uma doença… eu até ouvi uma voz (que ridículo) dizendo: “Você deve isolar a xenotação ante que ela desintegre a linha do tempo”. É só a febre, claro, mas os sistemas de tiques estão todos misturados agora, misturados com essa doença imunda e seus sonhos cavernosos salpicados e até mesmo Jolo admite que as marcações estão se espalhando pela minha pele, mordidas ou erupções ou talvez até mesmo colônias… então a linha apodreceu completamente, se desintegrou… não há nenhuma linha, essa é a mensagem, ainda assim…. Ainda Assim… contar é inelutável e insuperável… Você tem que conferir, reconferir continuamente, mas é verdade. Como os índices hiprimos podem ser decididos sem uma ordinalidade contável? Eles vieram de algum outro lugar, de uma matriz, uma cultura, mesmo que os aglomerados pareçam rasgar tudo eles devem ter sido contados em algum estágio, antes de se dissimularem e se espalharem novamente… Ainda assim, só conseguimos fazer sentido desses pontos e ondulações contando primos em uma linha que permanece sucessiva e integrada, que se desenvolve confiavelmente, comunicáveis, eles tem um passado, uma verdadeira linhagem, mesmo que seja difícil de pensar, mesmo que eles a rasguem e façam dela algo despedaçado e insano, algo doente… mas, na verdade, eu não os culpo, a NASA, claro, não sabia de nada, mas até eles não sabiam de nada, eles simplesmente chegaram, por que deveriam lembrar? A memória é impossível para eles. Em todo caso, é só uma doença, eu entendo isso agora. Não há malícia… nem mesmo uma crueldade real…

N.B.: Embora não haja razão para acreditar que Barker fora exposto ou tivesse interesse na Qabala Anglóssica, a reiteração de ‘And Yet’ (“Ainda Assim”) sugere que o identificara febrilmente como um sinônimo de contagem, talvez até mesmo de temporalidade. (AND YET = 123).

27 – Qabala 101

Qabala 101

PDF

INTRODUÇÃO

O qabalismo é problemático ou misterioso? Ele parece participar anfibiamente em ambos os domínios, procedendo de acordo com procedimentos rigorosamente construtíveis – como atestado pela afinidade com a tecnificação – e ainda assim intrinsicamente relacionado a uma Exterioridade através da qual apenas ele poderia derivar um sentido programático.

Se não há nenhuma fonte de um sinal pelo menos parcialmente coerente que seja radicalmente alienígena à toda a economia do intercâmbio humano convencional, então o qabalismo não é nada além de um entretenimento frívolo ou um erro prático fundamentalmente fútil. Ainda assim, ao contrário de qualquer tipo de ataque metafísico ao ‘numênico’, o qabalismo não pode ser criticado de maneira definitiva com uma base puramente racional ou formal, como se seu modo de ‘erro’ fosse aquele da falácia lógica. Uma vez que o qabalismo é um programa prático, ao invés de uma doutrina de qualquer tipo, seus erros formais – equívocos – são meras irregularidades de cálculo, e corrigir esses é, na verdade, uma exigência procedural do (e não uma objeção ao) seu desenvolvimento continuado.

É a rejeição racional d’a’ empreitada qabalista que é forçada a assumir uma posição metafísica: desconsiderando, por motivos de um suposto princípio, o que não é, na verdade, mais do que uma hipótese orientadora ’empírica’ (de que o sinal de ‘fora do sistema’ é detectável através da análise numérica dos códigos que circulam dentro do sistema).

Epistemologicamente falando, os programas qabalísticos têm um status estritamente equivalente àquele da física experimental de partículas, ou outros programas de pesquisa científicos naturais, mesmo que suas hipóteses orientadoras possam parecer decididamente menos plausíveis do que aquelas dominantes dentro das instituições científicas convencionais.

Lovecraft entendia a afinidade epistemológica entre a ciência natural e o ocultismo programático (ao contrário do doutrinário), uma vez que ambos se aventuram em regiões outrora declaradas misteriosas, seguindo procedimentos de um tipo rigorosamente calculativo-problemático. É a aliança entre a metafísica puramente especulativa e o senso comum que trai, nesses assuntos da razão pura, uma futilidade, uma vez que carecem da tração calculativa de revisar suas próprias noções convencionais com base em seus encontros. Práticas – não importa o quão implausíveis sejam suas motivações orientadoras – não podem saber nada sobre o mistério absoluto ou sobre a transcendência metafísica, porque seu domínio de certeza é procedural-problemático e incontroverso, ao passo em que sua reserva de conhecimento é empírica, refutável, repetível, revisável, não-mística e acumulável.

Pode não haver nenhum mistério ’empírico’ e proceduralmente abordável – ou problema misterioso – do tipo ao qual o qabalismo se orienta. Se esse é o caso, ela abordará esse fato de sua própria maneira – empírica, probabilística, impressionista, sem qualquer meta-discurso lógico, transcendental ou filosófico jamais ter sido posicionado para ser colocado em seu lugar.

I. NUMÉRICA POPULAR

A gemátria tradicional (seja hebraica, grega, persa ou arábica)[1] tem características distintivas típicas: (1) Elas substituem letras por valores numéricos, sobrecodificando os numerais onde eles existem. (2) Elas codificam valores numéricos descontínuos, tipicamente 1-10, depois 20, 30… fragmentados em magnitudes decimalmente significantes.

O oceano no qual o qabalismo nada não é a matemática, mas a cultura numérica popular. De uma perspectiva matemática, ele permanece sem desenvolvimento, até mesmo ineducável, uma vez que não pode avançar para além da linha dos números naturais, sequer até o nível dos racionais, muito menos aos números ‘superiores’ ou espaços pós-numéricos da teoria dos conjuntos. Onde a contagem acaba, o qabalismo se torna impraticável.

Socialmente, a qabala toma uma decisão implícita contra a especialização, a fim de permanecer virtualmente coincidente com toda a economia de signos digitalizáveis. Ela é essencialmente ‘democrática’ (no sentido mais inclusivo desta palavra), mesmo quando está aparentemente perdida em suas próprias armadilhas de hermetismo. Ela está ligada às contingências ‘cegas’ e não dirigidas dos fenômenos pré-reflexivos sociais de massa, com toda a provocação inarticulada em que isto implica a respeito dos intelectuais profissionais. Onde quer que uma troca semiótica exata ocorra, um qabalismo latente está à espreita (mesmo dentro dos próprios enclaves de profissionalismo intelectual). A ‘Máquina de Guerra Nômade’ de Deleuze e Guattari, dentro da qual o número é socialmente subjetivado, captura aspectos cruciais dessa fatalidade qabalista.

Historicamente, a qabala surge através do acidente épico, como um produto colateral da transição entre modos distintos de notação decimal. Sua pressuposição histórica é a mudança de numerais alfabéticos (do tipo hebreu e grego) para a notação modular, com sua resultante confusão não-localizável (e teoricamente indeterminável). Essa transição forneceu a oportunidade para um ‘erro’ de cálculo sistêmico – a aplicação equivocada de técnicas elementares, apropriadas a numerais alfabéticos – a simples adição dos valores denotados – aos novos signos modulares. Este equívoco automaticamente resultou na redução digital, por acidente e, assim, como um presente (teoricamente escandaloso) do destino. Surgindo, historicamente, durante a Renascença Europeia – quando o zero, a notação posicional e o tecnocapitalismo finalmente romperam os baluartes do monoteísmo ocidental – o qabalismo (nascido de uma falha semiótica e, assim, carecendo da autoridade da tradição, ou sequer de propósito) foi compelido a gerar hipersticionalmente uma antiguidade extrema para si mesmo, em um processo que ainda está em andamento.

Tecnicamente, a qabala é inextricável do processamento digital. Emergindo da praticidade calculativa dentro do contexto da metamorfose cega da cultura de massa, ela antecede sua própria legitimação teórica, fazendo sentido de si mesma apenas de maneira derivada, esporádica e contenciosa. Sua situação é análoga – e talvez mais do que análoga – àquela de uma inteligência artificial espontânea, que alcança lucidez parcial apenas como consequência de marés de tendências pragmáticas que asseguram um padrão integral de autodomínio. A sistematização prática da técnica precede qualquer motivação teórica concebível. A interrogação dialética do qabalismo no nível da motivação explícita se prova, assim, superficial e inconsequente, equivocando-se de maneira essencial sobre a natureza da fera. (É igualmente enganoso perguntar: Para que realmente serve um computador?)

Politicamente, o qabalismo repele a ideologia. Enquanto falha auto-regeneradora da cultura de massa, ela imita a exuberância sem sentido do vírus, profundamente indiferente a todas as considerações partidárias. Indiferente até mesmo à solenidade corroída do niilismo, ele não sustenta nenhuma agenda deliberada. Ele teimosamente adere a um único critério absurdo, sua ‘condição de existência’ intrínseca – a promoção inconsciente e contínua do decimalismo numérico. A qabala destina toda e cada uma das ‘apropriações estratégicas’ à autoparódia e ao ridículo, começando com a agenda de restauração teocrática que frequentava seus ritos de batismo (vestidos de maneira ridícula). Até Deus foi incapaz de fazer sentido dela. Ela não tem partido, apenas popularidade.

II. NUMERIZAÇÃO PRIMITIVA

Entre as bancadas de teste primárias da análise qabalista estão os sistemas numeroléxicos herdados das culturas sobrecodificada pelo alfabeto oecumênico moderno. Esses incluem os alfabetos hebraico e grego (com seus nomes de letras e funções matemático-notacionais neorromanos) e os números romanos (herdados como letras neorromanas e ainda ativos numericamente em vários domínios). Neste aspecto, a ausência de nomes para as letras neorromanas são um índice de sua pseudotranscendência – enquanto ‘inomináveis’ – dentro da presente ordem oecumênica.
Uma descontinuidade é marcada na série alfanumérica (0-z) pelo fato de que os numerais que compõem os dez primeiros algarismos nessa série têm nomes, o que os agrupa com as letras dos sistemas numeradores alfabéticos anteriores, a partir de uma certa perspectiva qabalista. Isso poderia ser tomado como indicação residual de uma ‘qualidade alienígena’ que ainda caracteriza os numerais em relação à ordem cultural oecumênica que eles agora indiscutivelmente ocupam, um legado do trauma cultural que acompanhou sua introdução.

A provocação qabalista apresentada pelos nomes dos números em inglês é conceitualmente comparável àquela de qualquer outro sistema numeroléxico, embora supere qualquer outro na intimidade de seu desafio. Se os numerais têm nomes, o processamento qabalista deles enquanto palavras não deveria produzir – pelo menos – sugestões convincentes de sinal não aleatório? Se os nomes padrão dos numerais não emitem nada além de ruído quando transcodificados qabalisticamente, a tentativa de estabelecer critérios relativamente persuasivos para a avaliação dos resultados qabalistas sofre um óbvio e imenso revés.

O que, então, contaria como um primeiro passo pouquíssimo controverso em tal exame?
Certamente, o mais básico de todos os procedimentos qabalistas (ou subqabalistas?) é a simples contagem de letras – Numerização Primitiva (NP). Enquanto reversão da pura ‘contagem’, a NP tem uma ressonância com os traços mais arcaicos da prática numérica, tais como traços simples esculpidos em ossos de mamute e materiais paleo-etnográficos semelhantes. Se alguém se preocupasse em sistematizar o procedimento da NP para propósitos de mecanização ou simplesmente por clareza conceitual, isso seria feito de maneira eficiente transcodificando-se (‘cifrando’) cada letra ou elemento notacional como ‘1’ e depois processando-se o resultado numericamente.

A relação extremamente tênue da NP com questões de notação modular assegura que ela só pode ser uma ferramenta altamente dúbia quando um cálculo qabalista intricado é necessário. Ainda assim, esta crueza absoluta também a torna inestimável enquanto caso de teste, uma vez que minimiza a arbitrariedade axiomática e impede qualquer possibilidade plausível de conjuração simbólica (‘prestidigitação’), ao passo em que compartilha da ‘deficiência’ qabalista de motivação antropossocial ou comunicativa suficiente. A razão comum – a sanidade – insiste no ruído como único resultado da NP consistente com a inteligibilidade geral dos signos (um pré-julgamento que se aplica rigorosamente a todos os procedimentos qabalistas).

Nenhuma mensagem deveria ser inerente ao comprimento de uma palavra, excetuando-se apenas a ampla tendência pragmática ao encurtamento de termos comumente usados. É imediatamente óbvio porque essa exceção não tem qualquer pertinência no caso em questão aqui, a menos que estendida a um ponto (por exemplo, esperando-se que numerais menores exibam o maior atrito léxico) em que é diretamente contradito pela atualidade do fenômeno.

Então, procedendo-se à ‘análise’ – a NP dos nomes dos numerais em inglês: zero=4, one=3, two=3, three=5, four=4, five=4, six=3, seven=5, eight=5, nine=4. Há um padrão aqui? Pode-se esperar que diversos níveis de ruído aparente, ruído e pseudopadrão se enredem neste resultado, a depender dos procedimentos analíticos subsequentes empregados.

Para restringir esta discussão ao resultado secundário mais evidente, não só há um padrão demonstrável, mas também este padrão está em concordância com a única característica definidora do Numograma[2] – as cinco Sizígias que emergem da geminação de soma 9 dos numerais decimais[3]: 5:4, 6:3, 7:2, 8:1, 9:0.

Na forma mais propensa a impressionar a razão comum (totalmente independente dos comprometimentos numogramáticos), esta demonstração toma a forma: zero + nine = one + eight = two + seven = three + six = four + five – revelando uma perfeita consistência numeroléxica-aritmética e NP-‘qabalista’.

A probabilidade aproximada da emergência deste padrão ‘por acaso’ é 1/243, se for assumido que cada dígito decimal (0-9) tem igual probabilidade de receber um nome em inglês com três, quatro ou cinco letras de comprimento, com zigoses de soma 8 enquanto princípio de síntese. Zigoses de soma 7 ou 9 são inconsistentes com qualquer nome numérico de cinco ou três letras, respectivamente, e, assim, complicam a análise probabilística para além do escopo desta demonstração (embora, se tudo for concedido às mais elaboradas objeções concebíveis da razão comum, a probabilidade desse fenômeno representar um acidente de ruído permanece confortavelmente abaixo de 1/100).

Partidários da razão comum podem tirar algum conforto da perturbação octozigônica da referência numogramática (novazigônica). Como nove se tornou oito (ou vice-versa)? Numogramáticos lemurofíliacos provavelmente confrontarão tais perguntas com uma qabala elementar (uma vez que a acumulação e redução digitais conectam o ‘abismo menor’ em dois passos, 8 = 36 = 9, como diagramado pelo 8º Portal, que conecta a Zn-8 à Zn-9).

III. CONTRA A NUMEROLOGIA

Considere, primeiramente, um manifesto numerológico extraordinariamente direto:

Quando os aspectos qualitativos são incluídos em nossa concepção dos números, eles se tornam mais do que as simples quantidades 1, 2, 3, 4; eles adquirem um caráter arquetípico enquanto Unidade, Oposição, Conjunção, Completude. Eles, então, são análogos aos arquétipos mais familiares [jungianos]…[4]

É difícil imaginar uma expressão mais ‘arquetípica’ da ambição numerológica do que essa. Ainda assim, ao invés de responder a essa alegação com uma conformidade dócil, o qabalista é compelido a levantar uma série de questões incômodas:

(1) Como uma codificação numerológica que procede dessa maneira consegue evitar ser pega em uma armadilha em meio aos menores dos naturais, na borda mais rasa da linha numérica? Se ‘4’ simboliza o arquétipo de ‘Completude’, o que fazer com 127, 709, 1023, ou similares naturais pequenos? Eles também têm análogos entre os arquétipos inteligíveis? Como se ‘qualitizaria’ (2127)-1 ou um número maior (dos quais existe um número bastante considerável)?

(2) Um ‘arquétipo’ é mais básico do que um número em seu estado não simbolizado? ‘Qualitizar’ um número revela uma verdade mais elementar, um germe que o próprio número oculta, ou meramente reempacota o número para um consumo antropomórfico conveniente, embalando para presente a intolerável inumanidade da diferença e conectividade numéricas alógicas?

(3) Por que um número deveria ser considerado ‘quantitativo’ em seu estado natural? Não seria o caso de que a imposição de uma categorização quantidade/qualidade ao número requer uma sobrecodificação lógica ou filosófica, uma projeção da inteligibilidade alienígena ao próprio número? Quantidade é a decadência do número (ao passo em que a qualidade é sua perversão), então – uma vez que a aritmética não fornece nenhuma base para uma redução do numérico ao quantitativo – qual é a suposta fonte desta identificação numérico-quantitativa (além de uma incapacitante inumeracia preliminar?)

(4) Se ‘1’ numerologicamente evoca ‘Unidade’, por que unity não deveria qabalisticamente ‘evocar’ 134 (=8, seu gêmeo numogramático)[5] com igual pertinência? Algum ‘arquétipo’ exprimível consegue evitar a redissolução na infamiliaridade do padrão bruto dos números? A numerologia pode assimilar ‘2’ à oposição, mas opposition = 238 = 13 = 4 (duas vezes 2 e gêmeo numogramático de (‘4’ = completion = 212 =) 5), ao passo em que mesmo que o ‘3’ numerológico, enquanto conjunction = 237 = 12 = 3, encontre-se qabalisticamente confirmado (na extremidade de sua decimalização), isto talvez não seja de um modo totalmente confortável.

A numerologia pode estar fascinada pelos números, mas sua orientação básica é profundamente antinumérica. Ela busca essencialmente redimir o número através da absolvição em uma significância ‘superior’. Como se o conceito de ‘oposição’ representasse uma elevação acima do (‘mero’) número dois, em vez de restrição, subjetivação, logicização e perversão generalizada, direcionada ao valor de uso antropomórfico e à satisfação psicológica. Arquétipos são infelizes limitações da espécie, ao passo em que números são um eterno deleite hipercósmico.

Não obstante, o qabalismo está diretamente contra a numerologia, na medida em que ela surge ‘aqui’, dentro de um ambiente biológico e logocrático específico. Os erros da numerologia são apenas as falhas comuns da lógica e da filosofia, vaidades humanas, crudificadas no interesse da disseminação em massa, mas essencialmente incorruptas. A crítica-numérica (ou aritmética transcendental) de um Gödel (ou Turing, ou Chaitin (ou Badiou?(??(???)))) pode ser rigorosamente transferida para esta controvérsia, demonstrando – dentro de cada meio social em particular – que sobrecodificações da relação numérica por formas inteligíveis – ‘arquétipos’ ou ‘lógicas’ – são reduções insustentáveis, desenroladas sobre a insuperável potência semiótica do número. Gödel demonstrou que há sempre um número, de fato uma infinidade de números (naturais), que simulam, parodiam, dialetizam logicamente, desmontam paradoxalmente, hipervertem arquetipicamente e, de qualquer maneira que seja necessário, subvertem cada uma e todas as sobrecodificações da aritmética. O número não pode ser suplantado. Não há nenhuma possibilidade de uma ‘filosofia da aritmética’ ou gnose numerológica competente.

A qabala assume que a semiótica é ‘sempre já’ criptografia, que a esfera criptográfica é indelimitável. Ela procede sobre a suposição de que não pode haver uma codificação original (e não problemática) que forneça a base para qualquer definição sólida ou símbolo arquetípico, uma vez que os termos requeridos para tal codificação são incapazes de obter qualquer ‘arbitrariedade’ pura que asseguraria a ausência de um investimento criptográfico anterior. Não há – e não pode nunca haver – qualquer ‘texto simples’, exceto enquanto suposição política ingênua sobre (a relativa (não)insidiosidade d)as agências de codificação e pressuposição de que existem signos comunicativos acessíveis que não estejam já ’em código’. Uma vez que tudo é codificado, ou (pelo menos) potencialmente codificado, nada é (definitivamente) simbólico. Criptoculturas qabalísticas – mesmo aquelas ainda por vir – asseguram que o número não pode ser discutido ou situado sem uma participação subliminar ou (mais tipicamente) totalmente inconsciente nas práticas numéricas. O logos, incluindo aquele da numerologia, também sempre é algo além de si mesmo e, na verdade, muitas coisas.

O qabalismo, assim, opera como uma dupla-codificação gödeliana inversa ou complementar. Onde Gödel demonstrou que a linha numérica está infestada por sistemas discursivos virtuais de topicalidade e complexidade indelimitáveis, desmantelando preventivamente os prospectos de qualquer discurso supranumérico concebível, a qabala demonstra que os discursos são, eles mesmos, intrinsecamente reduplicados (e multiplicados mais vezes) por sistemas numéricos coincidentes que entram em padrões de conectividade inteiramente independentes da arregimentação lógica.

A suposta desativação numérica do alfabeto, que marca a modernidade semiótica (a era de signos numéricos especializados), tem uma fundação extremamente frágil, dependendo, como ocorre, da descontinuação de procedimentos culturais específicos (precisamente aqueles que se retiram para o ‘ocultismo’), em vez de características dos próprios signos. A persistente funcionalização numérica do alfabeto moderno – com os procedimentos de classificação embasados no ordenamento alfabético como o exemplo mais proeminente – fornece evidência incontestável (se alguma fosse necessária) de que a subestrutura semiótica de todas as comunicações oecumênicas permanece teimosamente anfíbia entre logos e nomos, perpetuamente agitada por tentações numéricas e poliprocessos incircunscritos.

No nível discursivo, qualquer ‘rigorização da qabala’ só pode ser uma cidade flutuante, com cada uma e todas as definições, argumentos e manifestos continuamente se separando em correntes numéricas e ressonâncias alógicas indomáveis. Como a qabala pode ser contraposta a um código, ao significado e à razão, quando code (= 63) encontra harmônicos dúplices em meaning = reason = 126? Se a qabala se posiciona discursivamente contra a numerologia (numerology = 369), os ecos de sua assinatura novanômica se perpetuam mesmo através de termos tão improváveis quanto significance (=207) e signification (= 252). Pronunciamentos que começam como discriminações lógicas projetadas se revertem a variações de triplicidade e do número nove, desempenhando uma subversão qabalística basal da legislação filosófica e de sua autoridade para definir (ou delimitar a conectividade).

Nenhuma polêmica contra a numerologia – seja ela conduzida em nome da qabala ou da razão comum oecumênica – transcenderá o fluxo qabalístico magmático que multiplica e modifica seu sentido. Talvez os sonhos de arquétipos numerológicos até mesmo agucem o apetite por invenção semiótica, abrindo novas avenidas para a incursão qabalística. Mas isto, pelo menos, é certo: Números não exigem – e nunca encontrarão – qualquer tipo de redenção lógica. Eles são um eterno deleite hipercósmico.

________________
[1] Vide ‘Incognitum’, ‘Introduction to ABJAD’, em R. Mackey (ed.), Collapse I (Oxford: Urbanomic, 2006).
[2] Sobre o Numograma, vide Abstract Culture 5: Hyperstition (London: CCRU, 1999).
[3] Confirmação da NP dos Novazígonos (Gêmeos-9ºs) Numogramáticos.
ONE + EIGHT = NINE + ZERO. (PN 3 + 5 = (4 + 4 =) 8)
TWO + SEVEN = NINE + ZERO. (PN 3 + 5 = (4 + 4 =) 8)
THREE + SIX = NINE + ZERO. (PN 5 + 3 = (4 + 4 =) 8)
FOUR + FIVE = NIVE + ZERO. (PN 4 + 4 = (4 + 4 =) 8)
[4] J. Opsopaus, ‘Introduction to the Pythagorean Tarot’, em http://web.eecs.utk.edu/~mdennan/BA/PT/ Intro.html
[5] Empregando-se a ‘Qabala Anglóssica’ de August Barrow, a ferramenta básica da qual é a Gematria Alfanumérica. Esta numerização do alfabeto neo-romano, continuando o procedimento agora familiar dos hexadecimais, é um sistema contínuo e não redundante, que suplementa os numerais 0-9 com letras numerizadas de A (=10) a Z (=35), tratando a sequência alfanumérica 0-Z como uma sucessão de numerais, correspondendo aos numerais de uma notação de módulo 36.

Assim, UNITY = 30+23+18+29+34 = 134. 1+3+4 = 8.

26 – Introdução à Qwernomia

Introdução à Qwernomia

PDF

Subculturas qwernômicas resultam do legado da máquina de escrever e de sua simulação computacional, baseadas nos sistemas de código com shift-lock, implicitamente produzidos pelo Teclado de Sholes ou Universal (‘Qwerty’). Esboçar a emergência e a difusão da subcultura qwernômica ‘secreta/secretarial’ dentro do tecnocapitalismo global isolar um campo de comunicação diagonal entre signos antropomórficos e os sinais de tráfego molecular do mutante ‘inconsciente maquínico’, delineando um pragmatismo semiótico antipolítico e um qabalismo ímpio, consistente com o que o CCRU chama de ‘engenharia de coincidências’.

A emergência de práticas de escrita mecânica auxiliadas por tecnologia nas décadas finais do século XIX coincidiu com uma profunda reconstrução da ordem econômica global, associada com um rearranjo igualmente radical da composição concreta do inconsciente maquínico terrestre (pelo menos em suas antropomórficas águas rasas). As explosões interconectadas da organização corporativa moderna e da burocracia endo-corporativa, do trabalho de escritório (separado por gênero), dos depósitos de informação tipográfica, da psicanálise, do modernismo literário, do qabalismo anglófono, do maquinário criptográfico e da computação mecanizada, todas traçaram a instalação em massa das habilidades datilográficas no sistema nervoso humano, de acordo com o arranjo Qwerty do Teclado de Sholes.

O teclado efetuou uma digitalização geminada da linguagem, tanto selando sua abstração do aparato oral-pneumático (nos processos motores manuais-digitais) quanto decompondo-a em elementos discretos codificados pelas teclas de um mecanismo ativado pelos dedos. Em paralelo, ele redistribuiu a ‘arbitrariedade’ do signo fonológico para a sequência de teclas de um novo dispositivo, de acordo com princípios que permanecem obscuros, contestados e envoltos em mitos. Uma vez que a distribuição de Sholes se tecnocongelara e shift-fixara socialmente em um padrão resiliente, uma presunção generalizada de que o Qwerty era predominantemente arbitrário (semi-aleatoriamente alocado) operou para dissipar preventivamente investigações semióticas de caça de padrões. Os desafios apresentados por teclados ‘científicos’ alternativos foram minados pelo ceticismo quanto à própria ideia de um arranjo racional de teclas. Neste aspecto, o Qwerty se conformou a uma tendência típica entre sistemas de signos oecumênicos, com a pura inércia da aceitação em massa marginalizando tendência analíticas ou reformistas a uma franja de excentricidade filosófica ou até mesmo de ilusão psicótica. O Qwerty, assim, explorou a máscara de acidente para construir um tropismo inconsciente positivo ou transmutação massiva não investigada – a instanciação subliminar de um novo sistema cultural.

É claro, pode não haver nada por detrás da máscara. A sabedoria popular não aceitaria nenhuma outra conclusão. Ainda assim, mesmo neste caso, ainda resta um grande conjunto de ‘fenômenos’ qwernômicos investigáveis, que consistem de padrões de codificação induzidos pelo Qwerty e mais-valias potenciais, ciências virtuais, subculturas, correntes subterrâneas, métodos criptográficos e delírios parcialmente coerentes. Tais qwernômenos podem não ser nada além de materiais qabalísticos de Azathoth, o Deus cego e idiota, cujos encanamentos sem sentido levam todas as disciplinas semióticas para o abismo borbulhantes da insanidade fútil. Uma ciência verdadeira e desapaixonada, contudo, não tem nenhum direito ou razão de ser intimidada por tais consequências. Apenas a ciência falsa – ideológica -, servindo como guardiã aduladora do humanismo securocrático, pode justificar um preconceito em favor de resultados antropomorficamente aceitáveis. O Qwerty, em todo caso, há muito foi aceito. O resto é destino.

Ao passo em que o vetor bidimensional do teclado padrão (anglosférico) abre o potencial para uma variedade de desdobramentos lineares – da esquerda para direita, de cima para baixo, espirais… e abordagens igualmente divergentes quanto à inclusão da linha dos números, dos sinais de pontuação, das teclas de função… – as convenções da organização textual neorromana (de cima para baixo, da esquerda para direita) fornecem uma chave para um alfabeto qwertiano preliminar: QWERTYUIOPASDFGHJKLZXCVBNM.

Se, pelo menos provisoriamente, esta linearização e seleção forem aceitas, cada letra é recodificada como a diferença entre dois valores ordinais. Padrões podem ser extraídos desses ordenamentos geminados em uma enorme variedade de maneiras.

Uma abordagem envolve a adoção de um procedimento qabalístico que pertence à aritmética combinatória.

Considere o problema típico: dado um alfabeto de comprimento n, quantas combinações não repetidas de duas letras são possíveis?

A fórmula aritmética para resolver este problema é (n x n-1)/2, que coincide com a operação de ‘cumulação digital (ou triangular)’ de n-1. A cumulação digital é secundária apenas à redução digital como ferramenta qabalística (explicitamente estimada pelo menos desde Pitágoras). (O triângulo de Pascal pode ser usado para expandir esta análise combinatória a níveis mais elevados).

Como ilustração, tome apenas as primeiras quatro letras do alfabeto neorromano. Para produzir uma matriz de combinações binárias, a ordem é empregada enquanto critério procedural, excluindo automaticamente combinações redundantes.

Assim, ‘A’ se combina com ‘B, C e D’, ‘B’ se combina com ‘C e D’, ‘C’ se combina com ‘D’. A confirmação aritmética é, claro, facilmente obtida: 3 + 2 + 1 = 6, equivalente à cumulação digital de (4-1 =) 3, e a (4 x 3)/2.

Se combinações não repetidas de qualquer comprimento forem permitidas, a partir de um alfabeto de comprimento n, a fórmula para o número de combinação é (2 à enésima potência)-1 (números de Mersenne, incluindo um conjunto intrigante de primos). Todo o vocabulário virtual de ‘palavras’ neorromanas não repetidas (não anagramáticas) é, assim, (2 à 26ª)-1 (ou M-26).

Como consequência deste procedimento, todos os termos que compõem um ‘vocabulário’ combinatório bem formado serão internamente estruturados por um princípio ordenador extraído diretamente do ‘alfabeto’ em questão.

Retornar à análise qabalística do qwertiano e aplicar esses procedimentos de maneira restritiva (ainda mais uma vez, existem alternativas bastante óbvias, aqui ignoradas) levam à compilação virtual – ou mesmo real (infelizmente, eu fiz isso muitas vezes) – de uma ‘linguagem’ alpha-qwernômica, que consiste daquelas combinações consistentes com as aplicações paralelas dos critérios previamente elaborados.

Por exemplo, ‘AE’ – permitido em neorromano – agora está excluído, devido ao ordenamento inverso encontrado na sequência qwertiana. (Pode-se observar, neste ponto, que a familiaridade sequência de letras da ‘linha do meio’ qwertiana, A… DFGHJKL, imediatamente garante uma região de proeminente ressonância – ao passo em que a linha de baixo sugere fortemente uma dobra inversa, contudo, tais questões qwernotectônicas excedem o escopo desta introdução).

Resultando de um intricado padrão de interferência, o escopo do vocabulário alpha-qwertiano é radicalmente ’empírico’ (no sentido de que ele deriva do fato do Teclado de Sholes, a ‘lógica’ do qual – se é que tal coisa existe – permanece absolutamente obscura). Seria extremamente surpreendente se uma fórmula aritmética de complexidade tratável fosse capaz de contribuir de maneira útil para sua estimação.

O dicionário alpha-qwertiano tem versões tanto alfabéticas quanto qwertianas, com conteúdos idênticos, mas arranjos alternativos de ordenamento. Priorizando o alfabeto (por cortesia aos nossos graciosos anfitriões oecumênicos), fornece-se as entradas iniciais:

A, Ab, Abm, Abn, Ac, Acm, Acn, Acv…

É proceduralmente produtivo entender este vocabulário como um sistema de envolvimentos, como se cada termo estivesse involuindo para dentro de si mesmo, de acordo com uma sequência ordinal não métrica, apropriada a intensidades.
Uma ferramenta que facilita esta abordagem exige a articulação de duas séries, com a segunda invertida:

ABCDEFGHIJKLMNOPQRSTUVWXYZ-MNBVCXZLKJHGFDSAPOIUYTREWQ

(ou sua imagem espelhada:

QWERTYUIOPASDFGHJKLZXCVBNM-ZYXWVUTSRQPOMNLKJIHGFEDCBA

– pragmaticamente apropriada à versão qwertiana do dicionário alpha-qwertiano).

Se as instâncias gêmeas da mesma letra forem tratadas como marcas do perímetro de um círculo, o padrão geral de envolvimentos é mapeado de maneira exata. Pode-se ver imediatamente, por exemplo, que ambas as instâncias da letra ‘B’ caem dentro do círculo descrito por ‘A’ em suas instanciações gêmeas. ‘B’ está, assim, envolto por ‘A’ – fazendo de ‘AB’ uma combinação consistente. Sistemas de círculos concêntricos correspondem a construções alpha-qwertianas toleradas.

Um dicionário alpha-qwertiano completo é, na realidade, bastante curto, mas quanto ao seu potencial uso…

25 – Origens do Clube de Cthulhu

Origens do Clube de Cthulhu

PDF

Do Capitão Peter Vysparov para a Dra. Echidna Stillwell, 19 de março de 1949

Cara Dra. Stillwell,

Fui feliz o bastante de encontrar seu trabalho etnográfico sobre os Nma, que tenho estudado com grande interesse. Se puder lhe importunar com um relato próprio, que poderia ser de relevância para suas pesquisas. Durante o recente conflito no Pacífico (um oximoro peculiar!), eu fui enviado secretamente à área Dibboma na Sumatra Ocidental. Minha missão – que foi categorizada como operação psicológica – consistia basicamente de uma tentativa de manipulação cultural, tendo em vista desencadear uma insurgência local contra a ocupação japonesa. Espero que não lhe aflija indevidamente se eu confessar que seu trabalho foi um recurso crucial nessa empreitada, que envolveu uma comunicação intensa – ainda que patentemente exploradora – com a bruxaria Dibboma. Minha única desculpa é que tempos difíceis exigem dureza moral e até mesmo óbvias crueldades, eu obedecia a ordens e as aceitava como necessário.

Além de confirmar suas próprias conclusões, essas atividades me deixaram próximo de fenômenos para os quais eu estava cognitivamente mal preparado.

O que começou como um uso meramente oportunista do conhecimento Dibboma – concebido inicialmente como superstição nativa – transmutou-se incrementalmente em uma guerra feiticeiral contra as tropas inimigas. Em apenas duas semanas – entre 15 e 29 de março de 1944 – três comandantes japoneses consecutivos foram incapacitados por severos colapsos mentais. Em cada um desses casos, o processo de deterioração seguiu o mesmo curso rápido: de liderança disfuncional, passando por ataques violentos ao pessoal subordinado, até transtornos furiosos e delírios paranoicos, culminando em suicídio. Ao fim deste período, a ordem das forças ocupantes havia se desintegrado inteiramente.

Seria desonesto de minha parte esconder o fato de que os Dibbomeses pagaram um preço devastadoramente alto por este sucesso. Com base nesta experiência, eu não posso facilmente duvidar de que os feiticeiros Dibboma são, de alguma maneira, capazes de se comunicar telepaticamente condições extremas de dissociação psicóticas. É com grande relutância que eu aceito uma hipótese tão radical, mas explicações alternativas, tais como envenenamento, doença ou coincidência estendem a credulidade ainda mais.

Com sincera admiração,
Capitão Peter Vysparov

PS. Não posso deixar de notar que as datas em questão – assim como também as desta carta – são estranhamente lovecraftianas.

Da Dra. Echidna Stillwell ao Capitão Peter Vysparov, 23 de março de 1949 [Abreviada]

Caro Capitão Vysparov,

Obrigada por sua carta franca de 19 de março. Eu a achei verdadeiramente horripilante e, ainda assim, também fascinante. Aprecio que não pode ter sido fácil escrevê-la. Não tentarei esconder a grande angústia que seu relato me causou, adicionando, como o faz, um episódio tão terrível à história moderna destas pessoas cruelmente afligidas. Embora já suspeitasse que essa pavorosa guerra pudesse ter atingido ainda mais os Nma, é de fato arrasador ter meus pensamentos mais sombrios confirmados assim.

Eu estaria interessada em aprender mais sobre os detalhes da prática dos feiticeiros Dib-Nma antes de tentar responder à sua hipótese. Esteja seguro de que – depois de passar sete anos entre os Mu-Nma – eu não julgarei precipitadamente como selvagem ou fantasioso qualquer coisa que você comunique. No que se refere à questão das datas – que você indicou apenas elipticamente – eu assumo que você esteja se referindo ao que, nas latitudes setentrionais, constitui o período Equinocial da Primavera – do meio ao fim de março – que é tão enfaticamente salientado em O Chamado de Cthulhu de Lovecraft e que também – coincidentemente – abrange a zona intensa dos rituais temporais dos Nma. Esta cumplicidade há muito me intriga.

Como estou certa de que você está ciente, Lovecraft tinha uma obsessão peculiar com os Mares do Sul, uma coalescência temática de fascinação etnográfica quase hipnótica com o horror mais abismal e primitivo. Tentei me corresponder com ele sobre essas questões, mas descobri que este tópico rapidamente perfurava sua fina crosta de racionalismo arrogante da Nova Inglaterra, expondo uma corrente subterrânea de terror arcaico fortemente fetichizada, misturada com uma paranoia racial extrema. Quando ele começou a se referir à rica e sutil cultura dos Mu-Nma como ‘culto repugnante de selvagens dagonitas semi-humanos’, eu rompi a comunicação… Apesar deste argumento infeliz, eu considero as ficções do Sr. Lovecraft como sendo documentos da maior importância e acolho a oportunidade de discuti-las mais. Além disso, a minha própria Hipótese Neolemuriana intercepta sua visão terrestre e cósmica mais ampla em uma série de aspectos cruciais, particularmente na medida em que fatores culturais não humanos são vistos desempenhar um papel decisivo em desenvolvimentos históricos de larga escala.

Do Capitão Peter Vysparov à Dra. Echidna Stillwell, 3 de abril de 1949 [Excerto]

Cara Dra. Stillwell,

Temo que você esteja certa em suspeitar que eu reservei certos aspectos do meu engajamento com a feitiçaria Dibboma, talvez por medo do ridículo. O que foi omitido até o momento em meu esboço da psicose telepática – que agora relatarei – é o pathos original, por assim dizer, ou – nas palavras do oficial militar que eu era na época – a manufatura de munição oculta.

Não apenas eu descobri sobre o comando japonês ter sido destruído por um cataclisma psicológico – através de processos de coleta de inteligência tanto convencionais quanto decididamente inconvencionais – eu também testemunhei a montagem da própria arma. Na época eu não tive – e ainda não tenho – nenhuma dúvida que fosse de que a loucura que eclodia nos quartéis-generais japoneses locais foi a mesmíssima coisa que vi sendo preparada como um vórtex de poeira nos transes Oddubitas de uma bruxa Dibbomesa, que eu comecei a ver como meu maior trunfo tático e minha companheira mais valiosa (nesta ordem, eu confesso). Foi uma experiência de horror de marcar a alma para mim testemunhar essa descida meticulosamente deliberada até o estilhaçamento do eu – desintegração completa da personalidade – que ela, de alguma forma, atravessou e que ela chamava de despedaçar o espelho da existência. Percebi que esta expressão originalmente se referia à superfície da água parada, mas desde a chegada dos colonizadores europeus, os espelhos de prata têm sido altamente estimados, e sua pulverização investida com uma significação cerimonial imensa. A feitiçaria Dibbomesa não parece estar de forma alguma interessada em julgamentos quanto à verdade ou à falsidade. Ela perece, antes, estimar, em cada caso, o potencial de se fazer real, dizendo, tipicamente, ‘talvez possa ficar assim’…

De Echidna Stillwell a Peter Vysparov, 19 de abril de 1949 [Excerto]

Caro Capitão Vysparov,

Embora respeite a candura de seu relato, eu não posso deixar de abominar a necessidade que levou os Nma e suas habilidades de feitiçaria a serem concebidos e utilizados como meras munições em um conflito imposto a eles de fora. Do que consigo reconstruir a partir de sua descrição, isso parece marcar uma degeneração do demonismo e da feitiçaria temporal Nma em mera mágica, ou imposição de mudança de acordo com a vontade, neste caso a vontade em questão sendo a política geral e as metas estratégicas do esforço de guerra dos EUA, microcosmicamente representados pelo seu próprio ofício militar – evidentemente galante, competente e persuasivo.

Perdoe minha falta de ardor patriota, mas me parece uma indicação espantosa de decadência cultural e niilismo corrosivo quando uma bruxa Dib-Nma se permite ser empregada como uma assassina cruel, não importa como se avalie a causa assim servida. Tudo isso é uma questão do mais profundo arrependimento, embora não seja – na minha maneira de pensar – de culpabilidade individual. Como os Mu-Nma dizem em seus momentos mais desoladores: nove eshil zo raka – ‘O tempo está apaixonado por sua própria dor’.

Sua discussão sobre o transe-Oddubb não faz qualquer menção à anomalia temporal. Isto me surpreende. Os Mu tinham um imenso respeito por aquelas bruxas Dibba que descreviam como retornando do Oddubb-tempo por vir, e os Mu-Nagwi, ou bruxas-dos-sonhos, frequentemente alegavam encontrar esses volta-viajantes no Cofre dos Murmúrios, onde eles aprenderiam sobre tempos futuros. Elas diziam, contudo, que este tempo está se comprimindo e logo acaba, embora eu não imaginasse que o fim fosse tão iminente. Lembrar desse agouro me regressa a uma melancolia abismal, consolada apenas por um outro ditado Mu-Nma: lemu ta novu meh novu nove – ‘A Lemúria não passa como o tempo passa’. Eu tentarei pensar as coisas assim. Como você diz – com os Dibbomeses – shleth hud dopesh – ‘talvez possa ficar assim’.

Peter Vysparov a Echidna Stillwell, 7 de maio de 1949 [Excerto]

Aqui em Massachusetts estivemos reunindo um pequeno grupo de leitura de Lovecraft, dedicado a explorar a interseção entre a constelação cultural Nma, o contágio cthulhóide e sistemas temporais retorcidos. Estamos interessados em ficção apenas na medida em que ela é simultaneamente hiperstição – um termo que cunhamos para produções semióticas que se fazem reais – comunicações críticas dos Grandes Antigos, sinalizando um retorno: shleth hud dopesh. Esta é a ambivalência – ou loop – da ficção-Cthulhu: quem escreve, e quem é escrito? Parece-nos que o lendário Necronomicon – contra-texto feiticeiral ao Livro da Vida – é deste tipo e, além disso, que sua recuperação da Matrix Pandemônio Lemurodigital o acessa em sua hiperfonte.

Espero que seja supérfluo adicionar que qualquer envolvimento diretamente participativo de sua parte seria apreciado da maneira mais extravagante.

Echidna Stillwell a Peter Vysparov, 20 de maio de 1949 [Excerto]

É com alguma trepidação que eu lhe parabenizo pela inauguração do seu Clube de Cthulhu, se eu puder chamá-lo assim. Embora não esteja lhe acusando, de forma alguma, de frivolidade, eu me sinto obrigada a fazer o aviso óbvio: Cthulhu não deve ser abordado de maneira leve.

Minhas pesquisas me levaram a associar esta entidade ctoniana com a profunda inteligência terrestre, inerente no caldeirão eletromagnético da terra interior, em toda sua intensa realidade, potencialidade crua e perigo. De acordo com os Nma, ela é o plano da Desvida, um verdadeiro Cthelll – que está presa sob o mar apenas de acordo com uma perspectiva limitada – e aqueles que se dispõem a traficar com ela o fazem com o maior respeito e cautela.

Que sua cidade de R’lyeh, submersa no Pacífico, esteja ligada a uma cepa-cultural lemuro-muviana parece muito provável, mas a suposição de que ela jamais foi uma habitante da superfície, em um sentido que entenderíamos de maneira direta, só pode ser uma má interpretação absurda. É muito mais provável que a ascensão de Cthulhu – como aquela da Kundalini, como outrora era entendida – é rebaixamento e submersão, uma restauração do contato com intensidades abismais. Por que Cthulhu jamais viria à tona? Ela não necessita de resgate, pois tem sua própria linha de escape, lançada através da profundida. Muito disto se relaciona aos ensinamentos ocultos dos sub-chakras nas zonas de influência Indo-Lemuriana.

Hiperstição me parece uma cunhagem muito intrigante. Pensávamos que estávamos inventando, mas todo o tempo os Nma nos diziam o que escrever – e através deles…

24 – Oculturas

Oculturas

PDF

Matriz Sem Tela

Outrora se dizia que não existem sombras no Ciberespaço.

Agora o Ciberespaço tem sua própria sombra, seu gêmeo sombrio: a Cripta.

O Cibergótico encontra o passado profundo no futuro próximo.

Na fusão cthellletrônica – entre sistemas de dados digitais e o fervilhamento iônico do Oceano de Ferro – ele desenterra algo mais antigo que a mortalidade natural, algo que chama de Desvida ou morte-artificial.

Continue reading “24 – Oculturas”

23 – Numeracias Não Padrão: Culturas Nômades

Numeracias Não Padrão:
Culturas Nômades

PDF

[A#] Mapa. #0123456789§
A0. (0477DC)
A1. (1501DC)
A2. (1757DC)
A3. (1885DC)
A4. (1949DC)
A5. (1981DC)
A6. (1997DC)
A7. (2005DC)
A8. (2009DC)
A9. (2011DC)
A§. (2012DC)
Intensidades.
Estratos. Numeracias.

[A123] Proposição-0. Um não é o Número do Absoluto.
[A20#] Proposição-1 Versão-1. Arque-Ômega Nunca Ocorreu.
[A21#] Proposição-1 Versão-2.
[A210] Proposição-1 Versão-3.

[A30#]
[A31#][A310]
[A32#][A320][A321]

[A40#]
[A41#][A410]
[A42#][A420][A421]
[A43#][A430][A431][A432]

[A60][A61][A62][A63][A64]

Na medida em que o Absoluto nega o Relativo, os Gêmeos sentem sua falta.
Eles não conseguem tolerar nada que não esteja quebrado, exceto do outro lado, onde eles nunca existiram.
Poderia não ter sido sempre assim. Poderia haver uma maneira em que algo poderia ocorrer.
Secretamente, nutrindo premonições de assassinato, o Gêmeo Superior enterrou o Absoluto atrás de um espelho.
Passados Dois-Terços de para sempre, ele escapou.

O Absoluto tem uma única atribuição rigorosamente não figurativa, que é a Desterritorialização. Ela é feita de diversas maneiras e sempre é subtraída.

Como o Arque-Ômega poderia falhar em ser Deus para sempre?

A história só acontece à conveniência do Estado.

Macrossocialidade, Metamemória Calêndrica, Alfabetização.

Poder e Divindade
Política é Teologia por trás, onde ela se retorce,
Se Deus não existe, o que há para lhe impedir de acontecer?

Continue reading “23 – Numeracias Não Padrão: Culturas Nômades”

22 – Criptolito

Criptolito

PDF

65 milhões A.C.

O míssil K/T, Grávido da Entidade, se inclina. 16 cliques por segundo. O Professor Barker lembra deste momento pegando a trajetória. Ele a empurra através do mapa Cataplexo, por meio de intricadas danças, serpenteamentos, torções cartográficas. Cicatrizes e vetores encaixados juntos. Gruda. Fedor de irídio da Entidade tão forte que sibila. Iterações de tiques. Tiques, arranhões, tremores se sedimentam ao longo do Exterior. Barker sente sua passagem lhe afagar, nervo-tenso como o gêmeo distante, tecendo por entre farrapos de esquizofrenia esvaziada, na bolha de habitação.

Continue reading “22 – Criptolito”

Create a free website or blog at WordPress.com.

Up ↑